Viagem « Panela Literária

Viagem

por Nelson Martinelli Filho

Pode ter acontecido com você. Entra no ônibus certa moça de feições agradáveis e senta ao seu lado: a partir daí nada é mais o mesmo. Poxa, ao meu lado? Havia mais lugares? Havia mais lugares. É hora de manter a calma e agir normalmente – dada a mínima probabilidade de ela ter se interessado por você, o que, de fato, pouco importa no momento. Os braços, onde mantê-los? Por algum tempo procura uma boa posição, evitando movimentos bruscos. Nesse ínterim, a moça mexe no cabelo. Opa!, li em algum lugar que mexer no cabelo é sinal de sedução (sem dúvida, um estudo relevante). Volte a respirar, volte a respirar. Lentamente.

Passam-se minutos nesta cena: olha para a janela, para frente, para o corredor, para a janela mais uma vez, tentando aumentar o campo visual em relação a ela. Os braços continuam imóveis, agora meio dormentes. Lembra-se, então, que está em desvantagem, já que as mulheres têm uma visão periférica muito melhor: ela provavelmente está vendo você. Num nada de segundo, as pernas se tocam por obra do destino, ou da prefeitura, que forçou a curva. Vocês não as recuam, tornando o jogo crítico. E agora? Ela já sacou tudo, meu caro, não adianta fugir e dar uma de covarde publicamente. Nos momentos seguintes você tenta aproximar o braço dormente (quase morto) mais alguns milímetros da moça à espera de alguma reação. Ela não reage, pois, certamente, está se fazendo de difícil.

Alguns minutos (segundos? horas?) passados, ela ajeita a bolsa, o que a leva a encostar ligeiramente em seu braço. Bingo! Você estava certo, campeão. É hora de investir: pense, pense! Das muitas táticas e maneiras para abordá-la, você escolhe uma e se prepara: poucos movimentos, pulso zero. Antes do ataque – talvez alertada pelos sentidos aguçados (ou simplesmente porque chegou ao ponto de ônibus desejado), ela se levanta e desce.

Assim?

Sobrou aquela sensação de ter conquistado uma namoradinha. Foi um flerte que, no voar do pensamento, resultou em casamento, filhos, netos e caixões lado a lado.

Na verdade ela não fez nada, apenas esteve ali; o resto foi um teatro só seu, sozinho, monótono monólogo. Mas ela o marcou. Ah!, isso sim.

Espero-a numa próxima viagem.

1 Comentário

  1. Necan Oisorbam em 1 de agosto de 2011 às 14:39 | Permalink

    Gostei. Bastante interessante e inteligente. Parabéns.

Envie seu comentário

Seu email nunca será publicado ou compartilhado. Campos requeridos *

*
*