Três Poemas

CASÉ LONTRA MARQUES

ÁREA DE SOBREVIVÊNCIA

UM

Restamos sobre andaimes oscilantes, dispersos por raptos mal calculados: a vibração da palavra — agora elaborada

na extensão do desabrigo — desestabiliza o estímulo

antes clínico: cansados

do amparo da espera, mantemos a perna reaberta em estado de híbrido alerta: (será que seu tronco pressente o poema a produzir

mais uma possibilidade para a experiência): no ponto

de partir — reponho o fôlego

quando um pouco de poeira penetra no osso: (talvez

desacreditado

do imediato): prefiro ver a vida ruir a deixar o dia intacto

DOIS

Depois de restaurar o irmão

da terra

viva, levanta a noite

aberta

em branco: o exercício

estético do extravio — contra

a estreiteza do jamais

estranho — divisa

o corpo que se amanheceu

ao nítido

intento: preencher o vício

da solidão com

a fragilidade

do movimento

TRÊS

Detritos não de pedra, de estremecimento (talvez

tocando

a têmpora) dentro de uma cratera

batalhada na terra; recuso — distante

de todo

muro? — realocar

a córnea quase

calcinada: perdi, sim, perdi — apesar de deitado

na

calçada — a desaparição

dos

prédios concentrado

na

subsistência

de um

cínico inseto.

QUATRO

Um corpo no esgoto, vivo

terá

o que relatar? um tempo

sem

eventos: incisões

constantes — mas

inexatas — que tumultuam

a densidade do céu sobre a demolição;

como habitar

este

espaço debilitado:

prever

que não se poderá

respirar

entre

o que restar?

corre — contra o lodo —

pela

enchente — dentro

da chuva — chega a chiar

preparando

um órgão não delimitado

(não

deteriorado)

pelas galerias

que

ainda o agasalham

NAS FISSURAS DA ASFIXIA

Dissipada em fumaça, a fala vibra

uma sobrevida

nas fissuras da asfixia: nossa

vontade

de claridade — readaptada

ao rosto

não identificado — suspende

a monotonia

da perplexidade: ainda

mínima, a mulher — deitada

no dia — sustenta

um risco

conciso: penetramos

o sal

consumido

pela

sede deste cio

QUE PARTE DO OBJETO SE MOSTRA DECOMPOSTA?

UM

Movimento de músculos não humanos

na

direção do corpo

que

se combate; dedicado

ao inaudível, caminha

atravessado por pássaros

que o repartem

pelas

fontes do parque:

quem

saberá interrogar a mão

que

arrancará

um

rosto detrás destas águas

DOIS

Investiga — sem rigor, sem ruído — a vibração das seivas brutas: (aliada à corrosão): a ninharia de um enigma: não esquecer de combater pelos resíduos que apontam outros pulsos. Depois de recusar as areias da rememoração, o sentido não consentido imprime, na tensão que coagula o cotidiano, a precariedade da experiência — conhecendo como operar, por exemplo, uma incompreensão? Estas palavras (nossas artérias) se contorcem. Nas nuanças da incerteza — um modo de habitar a dor: manipular uma fome multiplicando suas fontes, uma fome — poderia ser um órgão, uma estrada, um nome — indiferente às fantasias que apodrecem antes de se poder prever a proximidade dos dentes? Como num conto, pensa. Tramado por esboços, por fracassos. Por incinerações. Como estar exposto ao amor a que os dias ainda sinuosos se doam: praticar — com impaciência — a incapacidade de reconhecer até onde deixar de morrer um pouco mais, um exercício — já assíduo — de reorientação dos atos de distração.

TRÊS

Respira a imagem

Viva

Na água avulsa

Voz que

Acentua a manhã concisa

Aperfeiçoada pela

Fúria

Física da música

Voz que

Acentua a manhã

Concisa

Respira a imagem

Viva

Na água avulsa

Recria

A área oblíqua

Da

Cidade abrupta

DO AUTOR: Saber o sol do esquecimento (Aves de Água, 2010: http://saberosoldoesquecimento.blogspot.com); A densidade do céu sobre a demolição (Confraria do Vento, 2009: http://adensidadedoceusobreademolicao.blogspot.com); Campo de ampliação (Lumme Editor, 2009: http://campo-de-ampliacao.blogspot.com); Mares inacabados (Flor&Cultura, 2008: http://mares-inacabados.blogspot.com).

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