Recanto do encontro
Espaço voltado para a literatura brasileira produzida no Espírito Santo reúne numerosos livros e amigos
por Donna Oliveira | fotos Samuel Vieira
Mudanças proporcionam o novo. Vez por outra os fatores se invertem e é a novidade que traz na garupa a transformação em todas as medidas. Praticamente redundâncias acabam de ser lidas. Oquei. Mas evidente é que o novo não pode ser tido como óbvio, pois é um dos mistérios mais obscuros que existem. Nesse contexto, vivia ele quase vinte anos na penumbra do segundo andar de uma das livrarias mais bem frequentadas de Vitória. Abarcava livros esperançosos pela luz de olhos leitores. As histórias que empilhava permaneciam fechadas, sedentas por serem despidas. Até personagem esquecido ali tinha. O lugar era de espera. Sempre espera. Até que veio a mudança.
Num passado pouco distante, a Logos, livraria em questão, teve sua matriz mudada de endereço. De Bento Ferreira para o Bairro de Fátima. Com a modificação, livros foram sendo reunidos pelo setor de consignação. Constatou-se, com certa surpresa, a enorme quantidade de livros de literatura brasileira produzida no Espírito Santo armazenada. Foi então que a sorte do depósito instalado na loja da Praia do Suá mudou.
A área de 52 metros quadrados passou de estoque para espaço, o espaço capixaba, único no Estado. Olha que transição! – Nós diminuímos o depósito. Livro em depósito geralmente estraga porque em Vitória temos essa poluição de pó de minério que é muito grande. Acabava entrando aqui e estragando os livros. Fui diminuindo aos poucos o depósito e agora ele fica numa salinha – conta Adriano Vinco, gerente da livraria.
As paredes do antigo estoque que sofriam com o cinza escuro do pó de minério – comum nos ares dessas bandas, proveniente das empresas instaladas no Complexo do Tubarão – ganharam clara pintura amarelada e estantes de angelim pedra. Peroba do campo deu corpo a mesas e bancos que também ancoraram por lá. O ar condicionado em 23 graus põe em clima agradável os títulos ali encontrados. Uma vez ao dia os livros passam pelo espanador. Uma vez por semana o pano é passado pelas lombas e capas dos exemplares. Cuidado é pouco. Pó de minério por lá é que não vi.
Os números – desculpe o trocadilho – são numerosos. Somente os títulos chegam quase a 800. A quantidade exata de exemplares ainda não foi computada, ao menos até o dia em que os visitei, mas de acordo com o sistema da livraria, vai de um a 1.125 unidades de uma única obra. Ante a possibilidade de dúvidas acerca da expressiva numerosidade da produção literária que parte do Espírito Santo, aviso expresso: elas devem ser dissipadas.
Ai, não. Você não pensou que por lá encontra poesias, romances e acabou, acredito. Livros de história – riquíssimos, por sinal – tem lá. Política, arquitetura, religião e fotografia? Tem lá. Gastronomia, ética, auto-ajuda, direito, jornalismo e infantil? Ora, tem. Saúde bucal? Pois é, também tem. Tem até marca-livros personalizados com escritores do Espírito Santo estampados. Tem Marilena Soneghet, Pedro J. Nunes, Francisco Grijó, Ivan Borgo, Francisco Aurélio Ribeiro, Luiz Guilherme Santos Neves, Fernando Achiamé, Maria Helena Hees Alves, Paulo Roberto Sodré, Adilson Vilaça, Sérgio Blank e Reinaldo Santos Neves.
– Qual a expectativa de vocês, aqui?
– Nossa expectativa é alavancar a cultura capixaba, proporcionar às pessoas conhecerem a produção que muitas vezes é desconhecida (dos leitores). Quebrar esse mito que há sobre a produção capixaba. Quando falamos que o livro é uma produção capixaba muita gente torce o nariz. É aquela coisa, julgar o livro pela capa. É essa a intenção.
O espaço ainda está para ser colocado na rota do turismo do Espírito Santo. Agora, quando um amigo seu vier ao Estado e quiser se inteirar da literatura brasileira produzida aqui, não precisará mais responder: ééééé…
Zunzunlogos
O outro espaço capixaba
Último dia da semana. Daí a pouco, em volta de mesas um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de homens e uma mulher só se organiza. Sob a benção de Renato Pacheco – que dá nome ao recanto da livraria que um sábado sim e outrossim é transformado em cortiço – a confraria de intelectuais formada por juristas, historiadores, advogados, jornalistas e sobretudo escritores se reúne. O ritual já dura vinte anos e tem até nome: Sabalogos.
Num desses típicos sábados ensolarados de setembro, na agradável balbúrdia de letrados condensada por vozes de todos os tons, encontro cinco sabalogos. O cronista Ivan Borgo intrigado com a cor do meu esmalte. – Engraçado esse tipo de pintura. Isso é preto, né? Álvaro José da Silva, escritor, jornalista e gripado. O politizado advogado Michel Minassa Júnior “com um éle mesmo, senão fica nome de cabeleireiro”. Henrique Herkenhoff, desembargador que tem sobrenome soletrado com o livre empenho de todos. Encontro “a única mulher dessa maloca”, Léa Brígida, que além de uma exceção sabatina, é presidente de honra do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo – IHGES.
– Ela invadiu o clube do bolinha – troça Ivan.
– É. Somos esses homens maravilhosos e eu. É tudo de bom.
Pergunto o nome de Léa completo.
– Meu nome, se eu falar todo pra você, não vai caber no jornal. É Léa Brígida Rocha de Alvarenga Rosa.
– O de Orleans e Bragança a Léa tirou – chacota Álvaro.
– É. Estava muito extravagante. Constrangido – gargalha.
Ivan continua curioso de minha presença. Acolhedor, o cronista.
– De que jornal você é?
Enquanto Ivan conta-me do livro de contos “superesgostado, claro”, Navegantes, que pensa em reeditar, Léa se junta à conversa.
– Não esquece de falar sobre a história do futebol!
Pauta, que pauta?
A turma que começou a se reunir sob o incentivo de Sérgio Bechara, que passara fortuitamente pela roda de conversa quando lá estive, foi descobrindo afinidades aqui, ali, acolá, foi crescendo e se mantém, após duas décadas, com uma vivacidade como se tivessem começado ontem. Na maioria das reuniões, o Recanto Renato Pacheco abriga a zumba de vinte velhos amigos – entre eles escritores não presentes quando os encontrei, como Reinaldo Santos Neves, Pedro J. Nunes, Francisco Grijó e Luiz Guilherme Santos Neves.
– Há um tema que geralmente discutem, aqui? – inocente, pergunto.
– Não há pauta. As coisas vão acontecendo – explica Ivan.
– Você imagina… – ergue formalmente a voz e a postura – agora vamos falar disso! – caçoa Michel. – Não tem tão somente um assunto. A gente conta piada, fala de política…
– Até de literatura! – graceja Ivan.
– É preciso esclarecer uma coisa. A não ser que tenha mudado muito (Henrique mudou–se para São Paulo e, agora, pouco comparece aos encontros), é rrrraro que alguém fale alguma coisa intelectual. Basicamente falam de coisas impublicáveis. Nos intervalos alguém fala alguma coisa séria. O pessoal de longe fala: “aaaah, o pessoal do Instituto Histórico e Geográfico e da Academia Espírito–santense de Letras deve falar coisas incríveis”, e o assunto que tá rolando é mulher pelada… – dispara Henrique.
– Futebol. Política. Governo… – declara Michel.
– Piada! – salienta Léa.
– Quem se reúne aqui é a nata da literatura do Espírito Santo, que não fica nada a dever à literatura nacional – elucida Michel, um dos poucos que não é escritor.
– Têm imortais aqui. Ivan… nós somos uma eminência à parte – gargalha Léa para depois apontar – Álvaro é imortal.
– Com outra gripe dessa eu viro imortal mesmo – junta-se às gargalhadas o Álvaro gripado.
– É. Ele só não morreu por isso – devolve.
Embalado no espírito brejeiro, lá vai Álvaro contar piada impublicável, levando o zunzum ao apogeu.
O homem
No cortiço literário refinado, que deixaria Aluísio de Azevedo, no mínimo, instigado, não são somente troças, discussões políticas e literárias e os risos de si compartilhados que têm espaço na confraria, não. Quando o assunto é saudade, o silêncio pede licença e se instala.
– Renatão faz uma falta… – um pensativo Michel lembra o amigo Renato Pacheco, célebre intelectual capixaba morto em 2004.
– O maior entusiasta desses encontros era Renato Pacheco. Não faltava um sábado. Ele era entusiasmadíssimo. Ele coordenava aqui – rememora Léa.
Todo capixaba amante de sua cultura, que se preze, sabe da importância de Renato Pacheco. Difícil, na verdade, desvincular de nossa história grande personagem amante do Estado. Ele, jurista, historiador, poeta, romancista, contista, folclorista, professor e cientista social, colocou em evidência nossos “bares, cantigas, rezas, folclore, praias, portos, rios, pássaros, cidades, favelas, artesãos, igrejas, artistas, vultos históricos, diversões, ruas, cemitérios, lendas etc.”, como bem descreve Oscar Gama Filho na revista Você, em outubro de 1997. Assentou o Espírito Santo no centro do mundo. Seu mundo era espírito-santense.
O refúgio inconsútil
a casinha de bambu,
o regato cristalino,
estão longe, na montanha.
E, Vitória, Vitória onde fica?
Onde ficam o mangue, o mar e os morros?
Escondo–me na Grande Ponte
bem longe, bem longe na montanha.
No prefácio da coletânea Instantâneo, lançada pela Secretaria de Cultura, o escritor Reinaldo Santos Neves denota a Renato Pacheco a reviravolta dos escritos capixabas. – E, se tenho de escolher um nome que simbolize aquele que, primeiro de todos, se amotinou contra a preguiça e o marasmo em que seguia a nossa literatura, escolho Renato Pacheco, que publicou o seu primeiro romance, A oferta e o altar, em 1964.
Reinaldo salienta a informação no mapa da literatura brasileira feita no Espírito Santo que, como grande pesquisador, traçou. – O primeiro sinal de mudança na prosa de ficção capixaba quem anuncia é Renato Pacheco. Com a publicação, em janeiro de 1964, de seu romance A oferta e o altar, pela editora carioca GRD, Renato Pacheco ao mesmo tempo reintroduz na literatura local um gênero literário praticamente intocado desde o século XIX e inaugura o moderno romance regional capixaba, além de garantir a edição do seu livro por uma editora de grande centro – escreveu.
No alto de uma pilastra do espaço capixaba da livraria, um rosto retratado por Vagner Veiga com dimensão de santo padroeiro parece abençoar. Tem aura de anjo da guarda. É um dos veladores da cultura do Espírito Santo. Está lá. O mestre. Está em casa. Renato Pacheco.
Vá lá
Logos Livraria
Av. Leitão da Silva, 303, Praia do Suá – Vitória
Telefone: (27) 3137-2582
*A entrevista e as fotos foram feitas em dias diferentes.
1 Comentário
Donna e cia,
Bom, antes de mais nada – parabéns, pelos textos e pelo site! De fato temos muitos mestres capixabas. O sentimento que emana é a vontade de aprender cada vez mais, o vício pelo conhecimento e a sensação de que falta tempo para aprender tudo que sonho. Certamente ajudarei a divulgar os artistas e o Sabalogos!
Beijos e abraços,
Caser