Poemas escolhidos
Joana
mesmo que eu quisesse (e, acreditem,
um dia eu quis), não poderia
ser só joão ou contentar-me
com a impura ana.
ana traficava entorpecentes
no peito e mantinha a britânica
cabeça lúcida. joão,
franzino, media a espessura
das vidas pela sua ausência.
artista de um poema sem vírgulas,
ela fingia um verso frouxo,
e ele via o horizonte pelo
seu avesso, seu oco: insosso.
certo dia, os dois se meteram
numa fresta de minha estante e
geraram, sem que eu percebesse,
errante, simétrica, joana.
Sobre um tema de Miguel Marvilla
A outra mulher da mulher que quero
enfia, lambe e cheira melhor que eu,
mas não fuma e nem faz sonetos mancos
(só bebe em taça branca o que não é sêmen);
não conhece os abismos aonde fui,
mas sabe a superfície de sua pele:
tatua, letra a letra, com seu nome,
o ruído febril que me despreza.
Dali seus olhos sempre me censuram,
me ensinam a seguir o fino risco
de suor que deixara aceso nela.
Assim, ausente e ativa, invade minha
língua, desce a garganta, intragável,
e, comigo, desponta suja, agora.
Sobre um tema de Machado de Assis
Quem és tu, que não atas nem desatas,
que não riscas cadernos sem segredo,
não mudas a toada sem desejo
e não encontras nada nos meus passos?
Quem és tu, que nos calos dos meus dedos
encantoas seus medos e mentiras,
prevês catástrofes e não atinas
para a calma insensata do papel?
Não tomas os caminhos que se afloram,
múltiplos, alternados, e preferes,
degredada, por fim, leito inimigo;
o verso aberto encerra, assim, teu ritmo
inexplicável e o contorno inerte
de teus ombros que, tensos, frouxos, dormem.