O hiato de Blank
Anos sem publicar e com perspectiva nenhuma de voltar a escrever, Sérgio Blank é poeta
por Donna Oliveira | fotos Samuel Vieira
A noite quente exibindo uma prévia do verão que estava por chegar deixava os ânimos excitados. Nesse espÃrito, ao adentrar a Biblioteca Pública do EspÃrito Santo, a BPES, estava preparada para ouvir e ver o enlace de crÃticas sociais entranhadas com o deboche paradoxal de valores que, pateticamente, foram alvos de palanque na eleição que, há pouco, elegera a primeira mulher presidente do Brasil. Pela pesquisa que havia feito para a entrevista, achava que seria essa linha de olhares crÃticos que iria orientar toda a conversa com ele que, anos atrás, escreveu poemas viscerais. Como O deboche.
em nome do padre e do filho e do espÃrito santo
batismo batman de robin hood
o banco desta praça é furtado
estamos tombados nas mil gramas
assentados com tudo bem em cima de um mÃssil deste tamanho
nas mis misses de prÃncipes em ilhas com rodoviárias
que deslizam na passarela do clube
a provÃncia de vitória
a louça sã e o barro doentio
febre de 80 grãos de anos
bate na ampulheta se masturbando
uma década de city presépio
com um monte de vacas, éguas, boys, palha de bibelô
um incesto (odontológico) e muita birra
revolta em não querer saber do porto de ir
muito menos conventos com cinco pontes para deus
a pedra paralela ao cais
um sapato no saco haja saco
querer saber é do barato e os insetos nos bueiros
o cine de santa cecÃlia e o parque
a rua sete vezes sete dias frequentável
abrir um bar em jardan de pã e depois só fechação
amarrar com correntes de irmãos metralha o pé no pé da cama
e permanecer em casa todos os fins de semanas semanas
viver é ver a vitória dos meus inimigos
o primeiro: a dor
o segundo: a dor
o terceiro: foi aquele que me deu a mão
este arquipélago é uma di-lÃ-cia
hirque… e help!
Daà a voz mansa de brisa fresca me deixa vacilante. Olhar o mar azul dos olhos de Sérgio Blank ao som limpo de sua fala calma é o suficiente para um jornalista abrandar ânimos excitados, abandonar suas perguntas prontas e deixar-se navegar sem âncoras. Não são ouvidas crÃticas ferrenhas nem arroubos do poeta que vive um hiato de doze anos sem publicar. E sim aprendizados de vida. Aos 46 anos, calmo onde está, Sérgio contempla com seus lápis-lazúlis as experiências que o lapidaram como ser humano e retrospecta o caminho que trilhou para amadurecer, suavizar a intensidade e desdobrar-se em poesias, que não as do papel. Ao contrário de muita gente, acredita em transformação.
- Eu me transform… eu acredito na transformação. Essa poesia (O deboche) foi escrita por um outro Sérgio Blank que tinha esse tom irônico, debochado, um senso crÃtico das coisas. Eu continuo crÃtico, continuo com minhas ironias. Mas com o tempo eu fui me suavizando nesse sentido. Acho que, se fosse escrever, hoje, seria uma coisa completamente diferente.
– Você falaria de quê?
– Não sei. Não estou escrevendo – diz, com riso.
Ex-poeta
Sérgio não se considera ex-poeta. Não é. É um poeta dentro do serviço público. Não perde a condição de bardo. Há cinco anos trava luta armada consigo mesmo para conviver com a burocracia e o fazer mecânico. Nesse perÃodo, enfrentou desde advertências até sua vontade de desistir. Quando é afligido pela impossibilidade de questionamentos, comum nesses trabalhos, dá uma parada, mira seus feitos obtidos de tanto empenho e dificuldade, abandona o desânimo e impõe força no braço para laçar papelórios e trazê-los consigo na rotina de todo dia. Porque é do tipo que saboreia um dia de cada vez.
Começou a vida profissional como livreiro e oficineiro. No ramo de livrarias trabalhou por quinze anos. Foi estagiário na Fundação Ceciliano Abel de Almeida, na Universidade do EspÃrito Santo, a Ufes. Queria ser jornalista. Como não passou no vestibular, perambulou pelas salas de aula aprendendo um pouco de tudo. Brinca que entrou na Ufes pela cozinha. Desiludiu-se com a instituição e com diploma é que não se importou. Fez da vida sua graduação.
Na Prefeitura de Vitória ficou por nove anos como prestador de serviço, envolvido em oficinas e ações literárias. Há quase cinco está na Secretaria de Estado da Cultura, a Secult. Há dois fica locado na biblioteca pública estadual. Por lá assessora rodas de leitura, lançamentos de livros, projetos de estÃmulo ao conhecimento e à leitura e visitas monitoradas. É o responsável pela supervisão editorial de obras lançadas pela Secult, o que lhe rouba horas de sono e lustra o rosto de contentamento. Neste ano ajudou a parir 21 produções em três meses. São olheiras que valem a dura pena porque são obtidas de um amor efervescente pela manifestação literária, norte da vida de Sérgio.
Foi como prestador de serviço da Prefeitura de Vitória que teve o olhar transformado. Nas oficinas literárias que produzia com os pacientes do Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômanos – CPTT e do Centro de Atenção Psicossocial – CPAS, levou humanidade. Era um desafio diário com pessoas de vida conduzida pelas margens. Sérgio entrou em contato Ãntimo com a loucura e a toxicomania. Levava vida para aqueles que viam as suas irem se perdendo pelas beiradas da sociedade, esmagadas pela cegueira dos ditos cidadãos de direito. A esperança era conduzida por palavras.  A vida fantasiada vivida pelo fio da história. Era a exatidão do que já disse Fernando Pessoa: Temos, todos que vivemos, / Uma vida que é vivida / E outra que é pensada/ [...] / Qual porém é verdadeira / E qual errada, ninguém / Nos saberá explicar; / E vivemos de maneira / Que a vida que a gente tem / É a que tem que pensar.
Levou artistas de todos os tipos para os encontros com os pacientes. Escritores, atores, cantores, pintores e artistas plásticos estavam lá. O objetivo era incentivar o resgate do amor próprio entre gente dos mais variados estágios de debilidade fÃsica e mental. No convÃvio constante com a dor num ponto agudo, e por muitos intocado, Sérgio mudou. Enquanto as pessoas buscavam forças internas, ele mergulhava na vida delas para submergir na sua. Descobriu-se mais afetuoso, paciente e compreensivo. Melhor. Reviu preconceitos que fingia não ter, como o medo da loucura e a pecha de que as pessoas envolvidas com drogas são responsáveis pela violência. Nem sempre é assim. Mudar o ângulo não é fácil, tampouco óbvio. É atirar-se num campo que, até então, era obscuro, e até mesmo ignorado.
- Toda essa ligação com inclusão social, com a dor humana, muda você completamente. Muda muito. Não sei se pra melhor.
- Fica mais humano?
- É uma faca de dois gumes. Você pode ficar mais amargo também. Você vê tanta injustiça, tanta falta de respeito. Pra mim é tudo gente. Gente é ser humano. E é isso. Não quero condenar ninguém nem julgar ninguém. Não tenho esse direito.
- Você acha que ficou melhor?
- Acho que sim. Acredito que sim.
Não se tem notÃcia de outro centro de tratamento, tanto da loucura como da toxicomania, que tenha ou teve um poeta trabalhando diretamente durante tanto tempo. É por isso que Sérgio se sente impelido a escrever um relato da experiência rara que teve. Acha que ainda não chegou o momento. Quando chegar, quem sabe também nós projetaremos o olhar para novos ângulos e outras realidades de vida?
Não escrita
A pergunta que mais circunda Sérgio é a que ele menos sabe responder. As hipóteses são de que ele não se sente à vontade, não quer compartilhar ou, realmente, não sabe dizê-lo. A verdade é que transmite sinceridade quando indagado sobre. E quem é que tem todas as respostas para seus próprios mistérios? Viver é isso, não saber tudo, mas permitir-se e respeitar-se. Parece que ele aprendeu isso faz tempo.
– Por que não publica mais?
– Essa pergunta não sei responder – ri pequeno. – Acho que todo esse percurso que to fazendo, nesses últimos anos, de oficina, de incentivo à leitura, de ajudar a publicar novos livros, novas pessoas, novos autores, é uma forma de produção. Não me sinto frustrado, não me cobro. Eu não to sofrendo. Então isso é importante.
– Você escreve ainda?
– Não. Não escrevo. Não escrevo e não estou sofrendo por isso. Já fui questionado de que estou mentindo, de que devo ter coisas anotadas e não mostrei pra ninguém. Não, não estou escrevendo.
Ver publicados os livros que supervisiona é mais importante que produzir um poema, em seu atual momento. É a forma dele se expressar como artista. Mas não para por aÃ. Planeja o relançamento de seus cinco livros num só. Já está pronto e com tÃtulo: Os dias Ãmpares. Releu toda sua obra para revisão. Sentiu mal estar em algumas páginas, confessa. Mas manteve a proposta e não tirou um verso sequer. Até o que não gosta, está ali, fiel ao momento em que foi escrito. Tudo que tem guardado de textos crÃticos sobre seus livros acompanhará a publicação.
Além de refutar o legado de ser um herdeiro da poesia marginal, literatura na qual não se inspirou e com que teve pouco contato, contesta o ostracismo em sua trajetória poética.
– Eu acho que a poesia que eu fiz foi feita num exato momento que ela tinha que ter sido feita. Ela surtiu o efeito que tinha de surtir e, pelo que eu vejo nos poucos leitores que tenho ainda, eles continuam com o encantamento que tiveram vinte anos atrás. Se as pessoas estão me cobrando que eu reedite é porque tem procura, tem interesse. Então, não está num ostracismo.
Ostracismo é uma palavra que, realmente, passa longe da vida do poeta. Figura ativa na promoção da cultura espiritossantense, é querido por todos do meio porque é generoso, afável e honesto, devolvendo todo bem que lhe fizeram. Com aparência que parece ter se congelado nos anos 70, de riso pequeno, tÃmido e de pele rosada, assim é, aquele que trata a pé de igualdade incluÃdos e excluÃdos. Porque para Sérgio não há limites. Margem e centro é uma questão do olhar. Sobre isso não há o que discutir, afinal, a vida é sua escola. Nisso já é doutor.