O contador de histórias
Com 38 livros publicados, faz uma bonita e importante trajetória como escritor, sem nunca ter lançado fora do Espírito Santo
por Donna Oliveira | fotos Samuel Vieira
Espero, em frente a uma loja de fotocópias de esquina, o ponteiro do relógio marcar dez minutos. Dou meia volta e dirijo-me à rua que tem nome de família real e museu. O bairro é de classe média de Vitória. Jardim da Penha. Povoado, sobretudo, por estudantes. A rua residencial que tem nome de família real e museu acolhe um prédio verde claro. O mais alto. Aperto o 601. Uma voz feminina atende e me permite subir. 1, 2, 3, 4, 5, 6! Abre o elevador. Saio para um pequeno corredor. Simultaneamente, como se o tempo de subida fosse metodicamente calculado, a porta de madeira do único apartamento do andar é aberta. O relógio marca, pontualmente, 15 horas. O horário combinado.
O apartamento é amplo e claro. O calor abafado do dia não é capaz de tirar o bem estar que se sente ao colocar os pés no recinto. A decoração é minuciosa. Os móveis são antigos. Há baú, cristaleira, estantes, cadeiras e mesa de madeira, telefone do início do século 20 e tudo. As paredes sustentam máscaras, antigos retratos de família, relógio de corda que faz blém-blém-blém anunciando a hora de 15 em 15 minutos e quadros do holandês Hugo Hutter, do uruguaio Alzugaray, do alemão Piffer, do francês de Cariacica Gilbert Chaudanne e dos “brasileiríssimos” – como ele intitula – Michel Saleme, Eugênio Herkenhoff, Gil Estevans e Jorge Solé. Há, ainda, espaço para uma coleção de chapéus de encher os olhos. E livros, muitos livros. Espalhados organizadamente por toda a casa.
Sento em um macio sofá ocre. Ao meu lado, confortavelmente metido em uma camisa grená de listras horizontais brancas, shorts verde quadriculado e sandálias Havaianas, também verdes, senta-se o torneiro mecânico, jornalista, técnico em química, publicitário, historiador, professor, escritor e contador de histórias – por minha conta –, Adilson Vilaça, de 53 anos. É nesse ambiente familiar que mergulhamos no mundo da literatura por, praticamente, quatro agradáveis horas. Num fôlego só!
Direto ao ponto, e pronto
Sem precisar fazer qualquer pergunta, Adilson solta a trava e fala de um tudo. Inicialmente, me olha pouco no rosto. Relança os pequenos olhos para mim a fim de pontuar o que está dizendo. Depois, mais à vontade, olha-me no rosto. Conta-me histórias.
Para começar, é autor de nada menos que 38 livros. É, ele é teimoso.
– Sou insistente. Faço muitas vezes com recurso próprio. Trabalho muito com livro de pesquisa, de encomenda.
– Consegue se adaptar bem a encomendas?
– Sem problema algum. Fiz livros lindos, ótimos e maravilhosos. Quando alguém me encomenda um livro, penso: “vou transformar isso numa peça literária”. Assim, escrevo com prazer, fazendo literatura e o que quem encomendou precisa.
Adilson usa a remuneração que recebe com as encomendas para investir em seus livros de literatura, ensaio e estudo. Sempre procurado, já escreveu para as prefeituras de Vitória, Anchieta e Colatina. Traçou a trajetória da Escola de Teatro e Dança Fafi e do Sinvesco – Sindicato das Indústrias do Vestuário de Colatina. Escreveu sobre os lambe-lambes do Parque Moscoso. Livros de família, também; e muito mais.
– Muitas vezes, o autor local não tem a receita e não tem quem possa fazer a produção por ele. Às vezes, ele tem de arcar com custo de produção, podendo ter prejuízo e nem chegar a cobrir o que investiu. Isso causa desestímulo.
– É difícil fazer literatura no Espírito Santo, não é?
– Eu penso diferente. Não acho difícil. Só exige que você seja criativo e teimoso. E, topar algumas coisas que não querem fazer: “ah, fazer livro para prefeitura eu não faço”. Já eu, não tenho problema com isso. Não faço coisas triviais. Às vezes, fico olhando a quantidade de poemas e outras criações que só estão publicadas nesses livros… Uma hora tenho que recolher parte dessas publicações para reunir esses textos que não fiz pra mim, nem por mim, foi alguém que instigou e para ele.
Entretanto, Adilson não deixa de lamentar que bons autores do Estado tenham escrito pouco por não haver uma profissionalização de editora, o que é um fator complicador. – Sergio Blank, Pedro Nunes e Deny Gomes, por exemplo, são ótimos, mas escreveram pouco. Não ter um mercado profissional, é claro, atrapalha.
Adilson é todo praticidade e lucidez. Não se deslumbra fácil. Faz literatura, sim. Literatura de pé no chão.
– Sucesso é o particípio passado de suceder. Pode ser ruim. Sucesso é o que aconteceu. O sucesso que me interessa é o reconhecimento do meu trabalho. Quando há alguém que está mais interessado em sua fama do que na de sua obra, está mais para celebridade que autor.
E, Adilson está mais para Vitória que para o eixo Rio-São Paulo. É ciente de que, fora das duas ferveções culturais do país, fica mais restrito ao sucesso local. E quem disse que ele está preocupado com isso?
– O eixo Rio-São Paulo é um sucesso. Às vezes, pessoas que não escrevem, assim, tão bem, vão para esse eixo e são projetadas e tudo. Mas, o que me interessa é ficar no meu lugar. Quero viver aqui. Não sou uma pessoa desesperada pelo sucesso. Quero é ter garantia de uma boa produção. Cotaxé (1997), mesmo, foi vendido nacionalmente e ganhou matéria n’O Estadão. Mas, não vou ter uma venda estupenda nacionalmente nem vou ser um cara conhecido nacionalmente
Diria que Adilson está mais para Manoel de Barros e Rubem Fonseca, que optaram por viver aconchegados em seus cantos longe dos holofotes, que para Rubem Braga e Aluísio de Azevedo, que saíram de suas terras para embarcar, com sucesso, na aventura de viver a ebulição artística e cultural do Rio de Janeiro e São Paulo.
Crenaques e espanhóis
Adilson é o quarto irmão de Pedro, Roberto, Humberto, Darly, Mariza, Renato, Rossita e Marcelo; filhos de Baltazar Ernesto de Freitas e Darcilia Vilaça. Nascido em Cuparaque, Minas Gerais, em 1956, mudou-se para a meio-mineira-meio-capixaba Ecoporanga, com menos de um ano de idade.
– Então você é capixaba, praticamente?
– Na verdade, em Ecoporanga tinha mais mineiro que capixaba. Quando fizeram a divisa com Minas Gerais, o Espírito Santo ficou com Ecoporanga. A escola, o delegado, o cartório, as professoras, a coletoria eram capixabas, e o povo era todo mineiro. Até a década de 1970, a população da cidade era 90% mineira. No colégio, na hora de cantar o hino do Estado, nós, crianças mineiras, cantávamos: “surge ao longe a estrela intrometida…” (risos). Tinha rixa, mesmo. Tudo bobagem.
O relógio faz blém-blém-blém. Adilson conta-me mais histórias.
Aliás, a paixão por histórias vem de berço. É herança de infância, legada das avós. A espanhola Efigênia Vilaça, e a descendente de índios crenaques Maria Raimunda são fortes referências de Adilson. Elas lhe permearam a infância de fábulas que vinham dos diferentes universos indígena e europeu.
– Na casa do meu pai – que abrigava umas 20 pessoas entre primos, avós e tias –, quando juntava as duas famílias, a do meu pai sentava no chão, comia com a mão. Geralmente faziam em ganelas de madeira. Eu adorava! A família da minha mãe era mesa com guardanapo, talheres… Eram dois mundos distintos.
Adilson, sem jamais perder o fio da meada, relata a história dos índios crenaques. Fala do porquê de ter abolido Freitas de seu sobrenome na assinatura de suas obras e logo começa a explicar a história da popularização de alguns sobrenomes comuns no Brasil e emenda a falar de onde vêm as palavras “mulato” e “mulata”. Conta do casamento dos pais traçando as questões históricas e sociais que envolveram o relacionamento. Para ele, todos os quês têm um ou vários porquês, que trata sempre de explicar, cheio de embasamento, e claro, história para contar.
Moby Dick aos sete
O ano era 1963. Desolado, Adilson via todas as crianças de Ecoporanga irem pelas ruas de chão para a escola. E ele, de mãos e pés atados. Para entrar para o colégio tinha que ter os sete anos completos. Para angústia do menino, seu aniversário é em agosto. O jeito era esperar o outro ano para aprender a ler e escrever. Mas, bem, o interesse dele, na verdade, era aprender a contar histórias.
– Comecei a pegar revistas em quadrinhos e aprender as letras. Eu escrevia todas as letras, e ficava muito irritado por que eu fazia assim no chão: vê, ó, jota, a, bê, é, agá – vojabeh – e perguntava aos meus irmãos: “o que eu escrevi?” Eles: “nada”. Eu ia lá e colocava um monte de coisa, imaginava que estava formando uma palavra, igual eu via nas coisas escritas. Eu falava: “escrevi uma história. Venham ler”. Meus irmãos diziam: “tem nada para ler aí. Não tem nada escrito”. Aí, eu contava a história que havia criado.
Como os irmãos não caíam na ladainha de Adilson, o jeito foi partir para os muitos analfabetos de Ecoporanga. Quando chovia, ele rabiscava letras na rua de terra molhada, “escrevendo” a história, na verdade, em sua cabeça. Chamava as pessoas que não sabiam ler e contava para elas a história que havia “escrito”.
Corta. Primeiro dia de aula. A professora começa a ensinar o a, e, i, o, u. Adilson interrompe:
– Já sei todas as letras. Quero aprender a ler.
– Então venha aqui no quadro e ponha todas as letras.
O menino canhoto escreveu todas as letras, fora de ordem. A professora explicou-lhe o abecedário.
– Para fazer o som, você precisa usar as consoantes e vogais. ‘B’ mais ‘a’ é igual a ‘ba’. ‘B’ mais ‘e’ é igual a ‘be’.
– Então, ‘l’ mais ‘a’ é igual a ‘la’: Ba-la!
Aconteceu que Adilson desatou a escrever palavras no quadro. A professora o pegou pela mão e levou para a diretoria da escola.
– O menino foi alfabetizado em meia hora. O que faço?
– Dê uma cartilha para ele ler – incentivou a diretora.
Fim do intervalo. Cartilha lida. Muito fácil, ele achou. É levado novamente para a diretoria. Na sala havia uma pequena biblioteca com livros infantis e leituras para os professores.
– Escolhe um livro para você ler.
– Quero aquele ali – apontou para um livro que tinha uma bonita baleia na capa.
– Não, ele é muito grosso. Escolha outro.
– Não, quero aquele ali – apontou novamente.
Foi para casa com Moby Dick, de Herman Melville debaixo do braço. Em uma semana, deu cabo à leitura. Em seguida, leu O Guarani, de José de Alencar, em três dias. Depois, os livros do advogado, do juiz, do pastor e do delegado da cidade. Por fim, consumiu todo acervo de três bibliotecas do Rio, e todas as literaturas da Biblioteca Pública do Espírito Santo e outros assuntos de seu interesse.
– Leu até os ruins?
– Sim, todos.
Boca de forno, forno
Adilson é da primeira turma de Jornalismo da Ufes – Universidade Federal do Espírito Santo. À controvérsia da família, que queria que ele fosse médico. Quando passou no vestibular, a expressão que mais ouviu, foi: “nossa!, fez tantos pontos que dava pra passar em Medicina”.
Quando tinha 21 anos, ficou sabendo de um concurso de contos que ia acontecer na universidade. Inscreveu-se. Nunca havia escrito na vida. Pois, em pleno período de ditadura, Adilson baseou-se na parlenda infantil para ironizar o cenário político da época.
– Boca de forno?
– Forno!!!
– Tudo que eu mandar fazer vocês fazem?
– Fazemos todos!!!
– E se não fizerem?
– Ganhamos bolo!!!
– Então engulam suas reclamações mesquinhas e não se esqueçam que o povo brasileiro é de índole pacífica.
O conto era Boca de Forno. Adilson foi vencedor do concurso. A escritora Bernadette Lyra, então sua professora, disse: “Como você não falou que escreve, menino?” Nem ele sabia que tinha alma, corpo, crítica e inspiração aflorada de escritor.
Foi o premiado conto – que integra seu livro de estreia A possível fuga de Ana dos Arcos (1984), e a antologia Identidade para os gatos pardos (2002) que faz parte das leituras obrigatórias do vestibular da Ufes – que lhe rendeu um fato marcante, que ainda lhe faz brotar lágrimas.
Numa época em que os operários do Brasil inteiro se mobilizavam e o setor de metalurgia tinha grande força, os trabalhadores de Vitória também de uniram. Foram feitas chapas para concorrer à organização do sindicato. O nome da chapa vencedora era Boca de Forno, em homenagem a Adilson, torneiro mecânico por formação.
– Essa é, assim, uma coisa sensacional. O melhor prêmio literário que recebi – emociona-se com os olhos marejados.
As horas
Adilson divide suas horas com a profissão de professor de uma faculdade particular e escritor. Chega a escrever 12 horas por dia. É superdisciplinado. Encontra, ainda, tempo para suas leituras. E, claro, aguçar seu senso crítico. Afinal, seus livros sempre têm uma pegada social. Violência, sadomasoquismo, loucura, sensatez, prazer, infância, preconceito social, racial e de gênero; por exemplo, são assuntos que ele não larga mão de abordar. Sempre, sob uma nova ótica, uma linguagem e técnica diferente. Seu negócio é literatura sobre seres humanos.
Dividido entre as várias tarefas, Adilson ainda encontra tempo para assistir, no confortável sofá ocre da sala, o futebol do seu Flamengo. É aficionado, mesmo, por um bom jogo, independente do time. Conta, até, que quando criança jogava sempre nos times da escola. Era “ponta esquerda”, o que hoje é chamado de “ala esquerda”. Ganhou até bolsa no colégio Marista por conta de seu desempenho no…
Blém-blém-blém. Blém-blém-blém.
Adilson inicia mais outra história, mas o relógio me expulsa. É horário de verão. O dia já caiu. Ainda faz calor. Adilson tem de receber o personagem de seu mais novo livro, encomendado. Então, blém-blém-blém.
2 Comentários
Achei ótimo conhcer sobre a vida de Adilson
Vilaça.Parabéns pela matéria.
Cuparaque, Minas Gerais, em 1956, pertencia ao Município de CONSELHEIRO PENA. A emancipação política se deu através da Lei Nº 12.030 de 21 de dezembro de 1995.