“Do amor e outros demônios”

Não, ele não é Gabriel Garcia Márquez, mas também é movido a paixões e demônios, como alguns personagens escritos pelo autor colombiano

por Donna Oliveira | fotos Samuel Vieira

Sorriso largo e astral típicos de uma criança que acaba de ganhar dos pais a desejada bicicleta. A cor bronzeada da pele, em pleno fim de inverno, entrega os pontos: casa nova no Morro do Moreno, em Vila Velha, que tem a Praia da Ilha da Baleia como parte do quintal; e um emprego novinho em folha como redator no Governo do Estado, em que não precisa mais fazer o serviço de assessoria de imprensa, que há tempos começara a lhe enfadar.

– Estou no paraíso. Em dias felizes da minha vida –, dispara sorridente Carlos Eduardo Guimarães, o Caê Guimarães, ao me encontrar pontualmente no lavabo do restaurante natural Sol da Terra, no Centro de Vitória, preparando-me para o almoço combinado. Ao fundo, no palco do local extremamente rústico e um charme só!, uma dupla de pai e filho toca baixo acústico e violão, inspirando a cadência da conversa que acabara de ser iniciada.

Praticamente ligado em uma tomada de 220 volts, Caê fez de um tudo. De representante comercial a ator de cinema. Hoje, é jornalista, escritor, roteirista e blogueiro. Mas, já foi aspirante a músico e pintor. Desistiu. Não, não levava jeito. A falta de dom para a música, aliás, é uma de suas frustrações. Já a participação em Lamarca, filme de 1994 dirigido por Sérgio Rezende, é um episódio que ainda o diverte.

– Até fala ganhei!

O tempo em que atuou como representante comercial foi difícil à beça. Com a morte do pai, Carlinhos, em 1996, causada por complicações de uma diabetes, Caê teve de assumir o posto de filho mais velho e trabalhar no negócio da família. Formado, na época, há dois anos em Jornalismo pela Ufes – Universidade Federal do Espírito Santo, vestiu o personagem e encarou uma profissão que pouco tinha a ver com ele.

O ano de 1996 foi mesmo intenso. Ficou marcado, também, por ter conhecido Massao Ohno, editor paulista responsável por publicar, pela editora que leva o mesmo nome, talentos como Hilda Hilst, quando ainda era desconhecida. Quem fez a ponte foi seu grande amigo, o maestro pernambucano falecido há cinco anos, Jaceguai Lins, que na época morava em Vitória. Por baixo da pele fria, seu livro de estreia, que abarca poemas escritos entre 1989 e 1995, foi publicado em 1997, com dedicatória exclusiva ao pai, Carlinhos.

– Dois meses após a morte do meu pai, eu tive que ir a uma convenção em São Paulo. Pensei: vou procurar o Massao Ohno. Fui ao estúdio dele e houve uma identificação imediata. Em uma semana ele me ligou e falou que ia publicar o livro. No ano seguinte foi lançado.

Quês e porquês

Por baixo da pele fria tem muito de Caê. Seus traços e seus vincos são marcados nos poemas. Não é preciso conversar com o escritor pessoalmente e vê-lo falar quase que ininterruptamente. Gesticular e bater o pé incisivamente, na ocasião, dentro de um sapato de couro preto combinado com uma camisa crua e calça de brim verde acinzentada – ou cinza esverdeada, fiquei em dúvida entre as opções – para perceber sua personalidade forte, seus modos um pouco agitados e seu interesse nos quês e porquês da existência. Basta ler Fragmentos de ninguém, poema escrito pelo menino Caê, aos 18 anos. Declarado o seu preferido. E pasme!, considerado, por ele mesmo, o mais completo de sua obra.

Habitamos uma cidade.
Dela recolhemos hálitos e narizes.
Línguas e pedaços de orelha no chão.
Os olhos são os únicos órgãos que flutuam no ar.
Como navalhas suicidas
Procurando um muro para se encostarem.
Somente aos olhos é permitido tocar a distância.

Em seus poemas captamos ironia para consigo mesmo. O que eu valho (que bom) não vale nada. Indagações. De tanta gana a tal sina fez-se outra. Em quantas fomes matamos uma só boca? Os onipresentes quês e porquês. Pedimos leões na praça e sorteamos entre nós mesmos o papel do cristão. Não. Não agora não que eu vou me arrebentar de rir. Afinal, foram vocês que na hora H baixaram os polegares. Carlos por Caê, ou Caê por Carlos. Sou a faca e a ferida. A boca e o bocado. Um caçador caçado. Seu lado visceral. Vender sua doçura foi o que fez de pior. Anéis arrebentados a marteladas. Uma lágrima arrancada na porrada.

– Por que você escreve?

– Para acalmar os demônios que existem dentro de mim.

– São muitos?

­– Muitos! (risos) Ah, talvez nem tantos assim, mas escrevo para acalmá-los.

– Você é inquieto, né?

– Sou. (mais risos)

A bem da verdade, a coisa não é tão assustadora assim. Para Caê, escrever não é um sofrimento. É prazer. Mas, fato é que o impulso criativo vem de sua inadequação com o mundo. Como se não coubesse no universo em relação a uma série de aspectos. Os demônios revoltos são essas inquietações da existência. Por a alma no papel o acalma, faz com que encontre seu encaixe e explicações para um mundo de coisas. Do mundo, sim.

São suas inquietações que regem o que escreve. Às vezes, mais suaves, mas sempre presentes. O que ele denomina como pimenta. Eu, um semi-exorcismo – se é que existe. Os textos de Caê, tanto poesia quanto prosa, são o reflexo do que ele sente, do que pensa, do que ouve, do que fala. E, dos demônios habitantes, claro!

Existem fantasmas no castelo escuro
Úmido húmus de cada consciência humana.
No meu castelo, dentre todos, sou eu.
Qual é mesmo o nome do teu?

Metáforas de um náufrago

O Brasil de Pelé garantia o tricampeonato na Copa do Mundo, realizada no México. Paul McCartney anunciava o fim dos Beatles. Era lançada a loteria esportiva para alimentar os sonhos de fortuna. Morriam os ícones Janis Joplin e Jimi Hendrix. O ano era 1970. No Rio de Janeiro, nascia com descendência indígena, portuguesa, inglesa, africana, italiana e, sobretudo, espanhola, Carlos Guimarães. Caê morou no Rio até os quatro anos, quando se mudou com a família para Vila Velha. Foi se banhando nas águas frias da Praia da Costa que nasceu para a literatura.

– Havia uma tradição na família do pai ensinar o filho a nadar. Meu pai me levava para a Praia da Costa e ficava brincando comigo dentro d’água. E toda vez que eu ficava com ele na água, eu pensava que estava protegido, mas, ao mesmo tempo desprotegido. Era a figura do pai e do mar. Toda vez que chegávamos em casa, tomávamos banho num chuveiro que ficava no quintal, para tirar o sal. Sempre que entro na água fria, tenho a sensação que pode durar cinco segundos ou minutos, que é a mesma que eu tinha quando meu pai me levava para brincar na praia. Eu me vejo como um náufrago em meio aos destroços de um navio afundado. Criar metáforas já estava em minha essência. Essa foi a primeira que criei. Tinha entre quatro e cinco anos.

Com três livros lançados, Caê quer muito mais. Está se aventurando a escrever dois romances, com títulos provisórios de Águas rubras – que já havia intitulado de Ao entardecer o demônio chorou, mas achou, assim, muito Paulo Coelho, e resolveu mudar o nome – e Encontro você no 8º round. Anda mais inspirado a escritor de prosa que poeta, essa é a verdade.

– Por mais que a poesia seja uma forma muito mais intangível, aberta a interpretações, impalpável, imprecisa… Quando você escreve um romance, passa por uma coisa espiritual. Não é religião, não. Mas é espiritual no sentido de provocar convulsões no espírito, de fazer com que ele vire algo maior e mais incompreensível. Essa é a incompreensão que se tem de si próprio, da vida, da morte, do sentido, da falta de sentido.

Além de ter suas crônicas publicadas quinzenalmente no jornal A Gazeta, busca novas aproximações do público. Por isso, planeja lançar um site. Mesmo cheio de novos projetos, Caê não deixa de desabafar sobre a difícil condição de ser escritor dentro no Espírito Santo.

– Somos um Estado periférico e os autores não são consumidos nem aqui. Isso é triste. É um pouco frustrante. Às vezes me sinto numa ilha, mesmo. O mercado me diz isso. Mas, acredito que se você oferece literatura, as pessoas estão ávidas. Falta é oportunidade.

Não é questão de bairrismo, mas ler obras que partem de dentro do Estado é criar uma identidade maior ainda com a cultura e a vivência local. Caê acredita nisso, e lê escritores como Reinaldo Santos Neves, Sérgio Blank, Fernando Tatagiba, Orlando Lopes, Oscar Gama Filho, Marcos Tavares, Miguel Marvilla e Waldo Motta.

Mesmo vivendo, hoje, no paraíso; Caê quer mais. É sabido que o caminho é longo. Mas a estrada tem condição suficiente para que a viagem seja segura e, assim, ele realize seu grande sonho: viver de literatura. E só.

Envie seu comentário

Seu email nunca será publicado ou compartilhado. Campos requeridos *

*
*