Diva do cotidiano
Mesmice, aqui, é tema fora de questão. Afinal, todos os dias são exatamente diferentes
por Donna Oliveira | fotos Arquivo
Trrrimm – soa o interfone.
– Oi? – atende.
– Oi. É Donna.
– Donna, você está muito atrasada, não vou poder te atender, querida. Sobe aí que te explico.
Fico aguardando em um pequeno pátio que alguma porta seja aberta.
– Donnaaa! Cadê você? – grita a familiar voz rouca.
Contorno o pátio. No alto de uma escada lateral do prédio de três casas, que mais parece um casarão, encontra-se a poeta capixaba Elisa Lucinda, metida num vestidinho estampado, me esperando.
– É por aqui. A entrada é lateral.
– Oh, desculpe.
– Donna, como você atrasa quase uma hora, querida? – pergunta, levando-me até a sala da ampla casa, que fica no meio do prédio.
– É que a entrevista anterior atrasou, e ainda peguei um trânsito danado para chegar até a Lagoa. Ainda tem um tempinho pra mim?
– Tenho, mas curto. É que tenho outro compromisso. Vou assistir a um filme mais tarde. Olha, estou com fome. Vou fazer um lanchinho enquanto conversamos, tá?
Cantarolando alto uma música ininteligível, segue descalça para a cozinha, e me deixa sozinha com Eva, gata que dorme em cima do piano, onde tem uma banda formada por várias esculturas de músicos negros. Há uma sensual vocalista, back vocais baixinhas e gordinhas, baterista, saxofonistas, pianista, baixista, e até um sanfoneiro.
Volta da cozinha com duas bandas de pão torradas recheadas com carne de frango, e uma caneca de chá mate gelado. Senta-se no chão, apoiada em uma mesa de centro toda purpurinada com artesanatos inacabados. Distração de Elisa nas horas vagas.
Cotidiano, o rei
Encontro Elisa em dias felizes de profusa produção. Escreve toda semana para o Correio Braziliense. Tem uma coluna que sai aos sábados, e projeta reunir as crônicas num livro que já tem nome: Só de sacanagem. À convite da Editora Planeta, estreia como romancista escrevendo uma biografia romanceada sobre ninguém menos que Fernando Pessoa, para a qual está lendo 40 obras ao mesmo tempo, a fim de pesquisa. E ela está adorando. Não satisfeita, já tem quatro livros prontos a serem publicados.
Apaixonada pelas novidades do cotidiano, das descobertas nas minúcias, comemora um mês sem fumar. É certo que fumava pouquíssimo, no máximo três palitos por dia. Nos momentos de boêmia, uns dez. O que ela vê de mais bonito nisso? Não o dia em que parou de fumar, mas os trinta que se sucederam, em que manteve firme a decisão de abandonar um velho hábito que a acompanhava há 30 anos. Move pensativa os olhos verdes para dizer com fala mansa que toda revolução acontece nas trivialidades do dia a dia.
– Sua poesia é uma releitura do cotidiano. O que é o cotidiano para você?
– Por que é uma releitura?
– Porque você traz muito a escrita de vários fatos cotidianos. É como se reescrevesse aquilo a partir da sua lógica, de uma ótica crítica. Traz o comum sob uma nova ótica.
– An ran.
– A gente está fadado a achar o cotidiano uma coisa comum. E você, com sua poesia, mostra o inverso. É o incomum do comum.
– Ótimo, é verdade. Mas, é que não acho comum. Acho incomum (risos). Eu acho o comum muito incomum. Por exemplo, esta gata deitada nesta tarde, quieta, quieta, muito parecida com a tarde, uma tarde sem vento. É comum quando você põe uma lente que dá destaque a esse invisível que o cotidiano aparentemente é. Mas, é o mais misterioso de todos.
– Por quê?
– Risos.
– É por que, ironicamente, todo dia não é igual?
– Primeiro, porque ele não se repete. Segundo, porque ele é mistério. É onde a gente passa a maior parte de nossas vidas, nossos dias. O banho que tomei ontem não é o banho que vou tomar hoje. Hoje é outro dia. É outra sujeira. A armadilha do cotidiano é essa: a gente trata com repetição, e ele não se repete. Ele é original e único como essa tarde, que não é como a de ontem. Ontem, a essa hora, tinha um cinto rosa no céu. Hoje é outro pôr do sol.
– A crença de que só se vive nos fins de semana, né?
– É. A gente arma essa armadilha e não vê a novidade dos dias. Um acontecimento muito sério na minha vida foi gerar meu filho. Eu gerei Juliano numa segunda-feira. Foi maravilhoso e um divisor de águas. Então, devem acontecer coisas importantíssimas nas terças, nas quartas, em dias que não são de aniversário.
Elisa credita o cotidiano como seu rei, sua paixão. É devota mesmo a ele, fonte de sua inspiração. Ela vai à contramão de Chico Buarque com Cotidiano e mostra que, todos os dias, ela não faz tudo sempre igual. E é no dia a dia, que muitos enxergam como rotina, que a poeta se abastecesse de munição para toda sua obra literária.
Ainda tem dúvidas, leitor, de que o cotidiano é um mistério a não ser revelado? Se sim, Elisa facilita. E convence.
– Não tem dia que o cabelo da gente está maravilhoso e não é festa? Não é nada. Você vai dormir, e o cabelo está maravilhoso. E, às vezes, é dia daquela festa e o filho da puta não fica bom. Então, cotidiano é misterioso assim.
Toda poesia
Encontro Elisa não apenas em dias felizes de profunda profusão, mas de encantamento, também. É capaz de multiplicar sua paixão pela palavra. Tal qual um casamento de anos a fio em que o parceiro se descobre admirando, se encaixando, amando ainda a mais parceira de toda uma vida, e vice-versa.
– Cada dia que passa, a palavra a qual eu fui iniciada, cada vez ganha mais sentido como tradutora da minha existência, da existência do mundo. Eu nunca pensei que eu fosse achar a palavra mais importante a cada dia que passa. Não, nunca pensei. Nunca pensei que só agora eu fosse entender o sentido verdadeiro de pregar a palavra.
– Qual é o sentido verdadeiro de pregar a palavra?
– Eu acho que o sentido é que você pregando a palavra, levando a palavra às outras pessoas – não a palavra de Deus, mas a língua mãe – você instrumenta o cara, dá ferramenta para a pessoa se traduzir. E com isso pode mudar e transformar a história dele e dos seus. É muito sério. Quanto mais repertório você tem, mais possibilidades tem de interferir no mundo. Eu não sabia com onze anos, quando comecei a estudar declamação, que naquele momento minha mãe estava me dando a chave pro mundo.
Na contramão da maioria dos escritores, Elisa apaixonou-se ainda nova pelo poema, mas não escrevia. Gostava tanto de ler e declamar na escola que sua mãe a colocou para fazer declamação com dona Maria Filina, a quem se refere como a rainha da palavra poética bendita. Durante seis anos – bem mais que o previsto – a menina ficou a declamar poesias nas aulas que tinha. Só foi saber que era poeta, mesmo, aos 17, quando já havia entrado para o curso de Jornalismo na Ufes – Universidade Federal do Espírito Santo.
Em síntese, Elisa foi educada para e pela poesia. Tudo que discordava, achava no discurso poético. Tudo que concordava, lá estava no discurso poético. Fernando Pessoa a autorizou a ser mal criada com conteúdo e fundamento. Modernistas como Quintana, Drummond e Bandeira a permitiram ser o que é na literatura. Ela não se esconde. Revela-se no que escreve. – Eu acho que se tivesse poema na adolescência das comunidades carentes, nós não teríamos tantos traficantes e violência – opina.
Com um método todo Elisa de escrever e declamar poemas, ela entrou numa cruzada para quebrar o tabu de que poesia é coisa chata, difícil e para poucos. Nas declamações, não respeita métrica. Conta uma poesia como se estivesse relatando uma história com todas as entonações e respirações que merece. Na escrita, opta pelo simples, mas visceral. – Eu quero que todo mundo compreenda. Não precisa de pedigree pra me ler.
Para ela, poema é assim:
De tal modo é,
que jamais negá-lo poderia:
sou agarrada na saia da poesia!
Para dar um passeio que seja,
uma viagem de carro, avião ou trem,
à montanha, à praia, ao campo,
uma ida a um consultório
com qualquer possibilidade, ínfima que seja, de espera,
passo logo a mão nela pra sair.
É um Quintana, uma Adélia, uma Cecília, um Pessoa
ou qualquer outro a quem eu ame me unir.
Porque sou humano e creio no divino da palavra,
para mim é um oráculo a poesia!
É meu tarô, meu baralho, meu tricot,
meu i ching, meu dicionário, meu cristal clarividente, meu búzios,
meu copo d’água, meu conselho, meu colo de avô,
a explicação ambulante para tudo o que pulsa e arde.
A poesia é síntese filosófica, fonte de sabedoria, e bíblia dos que,
como eu, crêem na eternidade do verbo,
na ressurreição da tarde
e na vida bela.
Amém!
Modelo, atriz, cantora
A poesia não deixa de ser uma ironia na vida de Elisa. Em 1986, pediu demissão do jornal A Gazeta e foi se radicar no Rio de Janeiro. Tinha livro pronto, mas nunca publicado. O plano era seguir carreira de atriz, e quando fosse famosa, passaria a publicar, lá pelos cinquenta anos, já que quanto mais velho melhor para a poesia. Acontece que quando chegou ao posto 9, na Praia de Ipanema, a cena comum era todo mundo de trajes de banho falando poemas. O pôr do sol chegava, as pessoas o aplaudiam e tome poesia. Elisa pegou o barco e começou a falar também. Falava os dela, de outros. Com seu modo diferente de declamação, chamou a atenção, e tão logo, vieram os convites para recitais em barzinhos, que a lançaram em eventos grandes Brasil afora.
Nessa época, ela não tinha livro lançado. Para se esquivar do problema de não ter livros publicados, após tanta procura, passou a escrevê-los à mão em papiros. Vendia por um real cada. Por fim, estreou com O semelhante (1994), aos 37 anos. Aí, não parou mais.
– Eu devo tudo à minha poesia. Ela me traduz. É muito potente em minha vida. Todo mundo dizia assim: “Elisa, para com esse negócio de poesia, Elisa. Onde você vai chegar com isso? Tão bonita com esse olho e esse rabo. Investe em ser modelo, atriz, cantora”. Hoje é ela que paga minhas contas. A poesia abriu todas as portas.
A carreira de atriz também vai muito bem, obrigada. O livro Semelhante virou peça, e ficou em cartaz por seis anos. Parem de falar mal da rotina já está há sete, e Elisa pretende continuá-lo por mais três. Sem contar que já tem outro espetáculo solo engatilhado, chamado História da vaca preta. É, ela é pura efervescência. Não para.
Uma capixabista coentrista
Criada em Itaquari, Cariacica – “Essa não sai do meu peito. Nunca vai sair. Ainda vou publicar um livro ‘Tudo aconteceu no quintal de Itaquari’” –, Elisa tem devoção pelo Espírito Santo. Em seus poemas, não esconde o amor pela terrinha. Derrete-se para dizer que acha o Estado o mais bonito do Brasil. É tão autêntica capixaba que põe coentro em tudo. É capixabista e coentrista, como diz, aos risos.
– Quando cheguei ao Rio, muita coisa aquela terra já tinha me dado. Eu devo ao Espírito Santo. E, como filha, quero retribuir a luz divina que o Estado me deu por ser filha dele. Acho capixaba muito inteligente, muito raro. O Brasil não sabe disso, ainda. Grito pra todos os lados: sou capixaba!
Tanta empolgação coentrista acordou Eva de seu pesado sono em cima do piano. A gata aprendeu com a “mãe” lições sobre os mistérios do cotidiano e não perdeu a chance de, envolta na luz amarelada que invadia a sala, contemplar mais um pôr do sol que revestia a Pedra da Gávea, visão privilegiada da casa de Elisa. Aproveite, Eva. Nunca mais haverá um entardecer como esse. Afinal, os dias não se repetem, jamais.
7 Comentários
Donna
Como é bom ler seus textos.
A leitura que você nos proporciona tem um mix de bom gosto, tranquilidade, traz prazer e ainda tem o agravante, positivo, é claro, de nos aproximar dos autores capixabas.
Sucesso
Você chega longe
Beijoooo
OLÁ ESTOU PRECISANDO DE ALGUMAS COPIAS DE POESIAS DE ELISA LUCINDA.sOU PROFESSOR E QUERO FAZER UM TRALHO COM OS ALUNOS NA SALA DE AULA COM AS POESIAS.
ABÇ.
ADONNAIIIIII…..
Adorei os seus textos, genteee virei fã.
Parabéns!
Donna, adorei…
Tiago tinha comentado comigo do site, masi ainda nao tinha visto…
parabéns!!
olá Donna!
seu site é 10… o engraçado é que estou aqui te ouvindo em sua apresentação aqui na Faesa e navegando em seu site ao mesmo instante. Parebens pelo o “Panela Literária”, vou salvar em emus favoritos.
bjussssssss!!!
Olá Donna
foi “culpa” do Paulo Sodré, que descobri este adorável site, adorei sua forma de escrever, parece que está batendo papo com o leitor, escreve de maneira despojada, gostaira de conhecê-la pessoalmente um dia.
Claramente percebe-se esse envolvimento gostoso com o entrevistado. Parabéns pelo trabalho (Blank me apresentou o Blog)… Tal envolvimento que admiro não ter se perdido nas florestas daqueles lindos olhos “Lucíndicos”