Capitoa da flor de areia
Ela escreve, principalmente, sobre mulheres, e refuta sem pestanejar o que alguns chamam de literatura feminina
por Donna Oliveira | fotos Samuel Vieira
– Essa menina é esquisita. Não gosta de brincar. Só gosta de ficar aí, com os livros –, diziam as crianças de Conceição da Barra, queixando-se da menina Bernadette Lyra, que trocava qualquer brincadeira de rua para ficar alojada na biblioteca do avô, o poeta barrense Manoel Cunha, deliciando-se com os livros, antes mesmo de aprender a lê-los.
Bernadette Lyra, que nasceu em 21 de outubro de 1938, era diferente das outras crianças da pequena cidade praiana do Norte do Espírito Santo, que passavam as tardes a brincar pelas ruas arenosas. Ela, com cinco anos, já sabia ler. Aprendeu sozinha.
– Aprendi com os livros e revistas do meu avô. Eu ia comparando os pedaços de palavras de histórias que liam para mim e descobri que aquilo tinha um sentido. Comecei a ler sozinha, e a partir daí não parei mais.
Ler não foi o suficiente. Quando tinha sete anos, escreveu uma peça teatral para ser representada no quintal de sua mãe, dona Maria das Dores. Bernadette ensaiou as amigas e fez a encenação. – A única coisa de que me lembro é que os nomes dos personagens começavam todos com “z” – diverte-se.
Bernadette é o que chamo de mulher de peito. É do tipo que enfrenta – e acolhe – a vida com determinação voraz e uma disposição de dar inveja a qualquer cristão. É difícil, tête-à-tête, acreditar que esta simpática senhora de cabelos curtos tingidos de vermelho, sorriso, muito sorriso, pele bonita e alva, voz rouca e empolgada, e visual nadinha antiquado, tenha 71 anos. Pode até não gostar de celular – e não que isso signifique muita coisa –, mas é moderna a valer, e a frente de muitos de sua geração.
– Você lida bem com pessoas da sua idade?
– É uma relação legal, mas elas me acham um pouquinho estranha. Acham que sou muito serelepe pra minha idade (risos). Eu, claro, me divirto.
Flor de areia
– Quem nasce em Conceição da Barra não chama a cidade assim, não. Para a gente, é a Barra! –, logo me explica quando cito Conceição da Barra no início de nosso encontro num fim de tarde de uma sexta-feira de outubro, em um badalado e charmoso café da Praia do Canto – cantinho de Vitória que ainda era desconhecido dela. A escritora não deixa dúvida. Entre as tantas bagagens que carrega, uma delas é a Barra, acolhida com aconchego no peito.
– A Barra marca muito quem nasce lá. É uma cidade que é uma flor de areia. Ela não tem profundidade, é à flor da pele. A pele dela é de areia. Minha experiência de mundo, por onde quer que eu vá, está sempre permeada por ter nascido na Barra. Por ter o gosto da salmoura na boca. Pelo constante ruído do mar, dia e noite.
A Barra é personagem tão intensa na história de Bernadette que, quando ela fazia pós-doutorado na Universidade René Descartes, em Sorbonne, na França, e entediava-se nas aulas, desembestava a desenhar. O fio da memória que puxava como inspiração era a infância na sua “flor de areia”. Traçava o velho casarão em que nasceu. Os desenhos, guarda como lembrança até hoje, embora, entre risos e trocista de si mesma, esclareça que é péssima como desenhista.
Dona de si
Bernadette saiu da Barra aos 12 anos para ir rumo à capital, Vitória, estudar no Colégio do Carmo, um tradicional internato de freiras que ficava no Centro da cidade. Consta que era uma das duas opções de escolas para crianças que vinham do interior, na época. Após concluir os estudos, voltou para sua cidade e ali começou a exercer a profissão de professora.
Foi ainda na Barra que casou-se pela primeira vez, aos 20 anos, e teve os dois filhos, Álvaro e Fábio. Com a mudança de emprego do marido, foi residir em Vitória. Na contramão das donas de casa da época, ela não titubeou e prestou vestibular para a Ufes – Universidade Federal do Espírito Santo. Passou. Aos 31 anos, foi cursar Letras e administrar, ao mesmo tempo, a vida de mãe, esposa, dona de casa e estudante. Mas, bem, eu já disse que Bernadette é uma mulher de peito…
A paixão pelo meio acadêmico levou-a a ser professora da Ufes. Incansável nos estudos, lançou-se no mestrado em Comunicação pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Logo pulou para o doutorado em Artes/Cinema pela USP – Universidade de São Paulo e, depois, o pós-doutorado na francesa Sorbonne.
Foi, também, no mundo acadêmico que veio a seu encontro uma das histórias mais lindas de sua vida. Saída há dois anos de um casamento que durou 14, Bernadette conheceu Gelson Santana, um aluno 18 anos mais novo, negro, lindo, inteligente e brilhante. – Foi tiro e queda –, brinca.
Além de ter lidado com o preconceito por ser divorciada – “Enfrentei uma barra. Na época havia muito preconceito com as mulheres que se divorciavam” –, Bernadette bateu de frente com a sociedade para viver sua relação com o aluno. – As colegas do Colégio do Carmo me olhavam de lado. “Ela enlouqueceu, ela enlouqueceu”, diziam. Imagine, era a elite de Vitória que havia estudado lá. Mas eu não estava nem aí. Já escrevia, era independente e continuei a minha vida, produzindo, trabalhando –, relembra.
– Se hoje sou muito, muito feliz, é porque tomei minha vida na mão. Eu merecia essa felicidade, porque eu fui lá e a agarrei com unhas e dentes.
Casados até hoje, Gelson – o seu diamante bruto, como ela própria diz – e Bernadette trabalham juntos há mais de três anos nas pesquisas sobre cinema de bordas, termo criado por ela para classificar filmes nacionais que misturam diversos gêneros, numa espécie de trash marginal. – Somos ligados pelo coração, pela mente, pelo afeto –, derrete-se.
Literatura dela, sobre elas
O pesquisador Francisco Aurélio Ribeiro, em seu livro A modernidade das letras capixabas, afirma que Bernadette Lyra é um nome ímpar na literatura escrita e publicada no Espírito Santo na década de 1980. Foi a época dos livros de contos As Contas no Canto (1981), O Jardim das Delícias (1983), Coração de Cristal ou A vida secreta das Enceradeiras (1984) e da novela Aqui começa a dança (1985). A escritora alçou voo, e passou a lançar em editoras nacionais, e foi com Tormentos Ocasionais (1998), publicado pela Cia. de Letras, que tornou-se conhecida fora do âmbito capixaba com sucesso, ganhando até tradução no exterior.
Bernadette tem como característica marcante escrever personagens femininas fortes e centrais em seus livros.
– Você acredita que realmente exista uma literatura feminina?
– Não. Eu acredito que as mulheres escrevam dentro da experiência delas, mas não que isso constitua uma chamada literatura feminina. Creio que mulheres escrevendo sobre mulheres são muito mais fiéis à experiência da vida. O feminino é uma categoria muito híbrida. Existe literatura, e pronto!
É a partir da rica experiência de vida, transmitida em entrelinhas para o papel, que Bernadette deu corpo ao próximo livro já pronto, A Capitoa, que pretende lançar no ano que vem. Trata-se de Luiza Grimaldi, portuguesa que saiu de seu país balouçando sobre as ondas numa caravela para vir se acostar num Brasil ainda selvagem, degredado, cheios de índios e homens grosseiros. Luiza foi a terceira donatária da capitania do Espírito Santo. Ela sofreu por ser mulher. Padeceu o desprezo por não poder ter filhos. E, mesmo tendo botado para correr piratas ingleses que invadiram a capitania, foi destituída do cargo pelo rei Felipe II da Espanha. Afinal, mulher não tinha direito a mando.
Os fatos são reais. Estão grafados na história do Espírito Santo. A escritora bebeu dessa fonte para, sem compromisso com a coerência histórica, trazer à luz a história esquecida de seu Estado, e sobretudo, recriar uma personagem de coragem, mas frágil. Não só o contexto da época interessa a escritora. Era transpassa para o leitor sentimento. Não há autobiografia, não, senhora. Mas, quem conhece Bernadette enxerga em suas personagens características dela própria, como a não conformidade social, a vitalidade, o desejo de fazer diferente e a propriedade de ser quem se é e ponto.
Por fim, literatura, para ela, é questionamento. E ela indaga com ironia e sem dó a morte, os dramas da classe média, as pequenas angústias cotidianas. Ler Bernadette é fazer uma releitura cotidiana da sociedade. E é essa leitura autêntica que faz em Parque das felicidades, livro de contos que acaba de lançar. – O nome é uma grande ironia. Falo, nele, é das dores que a sociedade vive –, explica.
– Tenho vocação para escrever sobre esse lado não alegrinho. Há pessoas que vivem uma vida mascarada, de ostentação e brilho, mas que no fundo são amarguradas. Isso me toca. A dor secreta das pessoas de não ser o que aparentam é o que me incomoda e atrai para escrever, e não a primeira face, a face feliz da coluna social. As mulheres, sobretudo, têm muito disso.
Ela não é toda, apenas, vocação e observação, não. É lucidez, também.
– Olha, o que mais me incomoda, acima de tudo, é a esperança.
– Você não tem esperança?
– Não. Vivo cada momento meu sem esperança de nada, sem fazer dela a minha plataforma. Eu acho que a esperança é falida. Ela está sempre condenada a murchar as asinhas e cair.
Bernadette é tão visceral quando o assunto é vida vivida correndo nas veias, que prefere o desespero à esperança. O que interessa é o concreto, duro, cruel, mas não onírico.
– No desespero se está ali, todo na dor, no real. Quando se vive na esperança, está-se vivendo num sonho.
Literatura como âncora
Em 1993, Bernadette enfrentou o momento mais difícil de sua vida. O filho mais velho, o estudante de Direito Álvaro, sofreu um acidente automobilístico na Avenida Nossa Senhora dos Navegantes, em Vitória. E morreu.
A literatura, mais uma vez, entrou com extrema importância na vida de Bernadette. A escrita serviu como âncora para ela enfrentar o difícil momento, resultando no livro Memória das Ruínas de Creta (1997). No conto O Sacrifício, a escritora inclina sobre a arte de fazer história toda sua dor para falar de como os filhos eram arrancados da frente do prato de sopa para ser mandados para combater o Minotauro. Ela, ali, desabafa sobre perdas. Sobre a dura missão de ser mãe.
– É a dor de uma mãe que perde seu filho. Essa perda é uma espécie de cobrança dos deuses. É pagar por toda felicidade que se possa ter.
Bernadette exorcisou, apoiada na literatura, sua dor.
– Creta é uma ilha. Vitória é uma ilha. As ruínas dessa ilha sou eu. É o corpo em pedaços que fiquei com a morte do meu filho. Exorcisei essa dor. Continuo uma ruína, mas uma ruína digna.
Da areia para a garoa
Após a morte de Álvaro, Bernadette decidiu que era hora de morar fora de Vitória e respirar ares que não cheirassem a perda.
– Sentia muita mágoa de passar naquele lugar tão lindo (Avenida Nossa Senhora dos Navegantes). Por isso, fui embora para São Paulo, dar aula na Usp.
– Como é sua relação com o Espírito Santo, hoje?
– É uma relação de exílio. Estou exilada, e louca para cair fora de São Paulo. Sou uma estrangeira naquela cidade.
Nem é preciso dizer que, o seu plano de futuro, é voltar a morar em Vitória.
– Preciso sentir meu povo, minha gente.
Enquanto a mudança não acontece, ela vem todo mês à sua terrinha, para ficar perto do filho, Fábio, e corujar os netos Rafael, 22 e Vitória, 8. Thales,15, o neto do meio, mora em Belo Horizonte, e para lá ela também viaja a fim de encontrá-lo. Quando a agenda está apertada, tira um domingo e voa para recarregar as baterias de energia capixaba, e volta no mesmo dia para a terra da garoa.
Rompendo as dificuldades físicas de se estar aonde ama, Bernadette rompe também o tempo. E vive, sem medo da velhice – “cada época é uma época, não tenho saudosismo” –, tudo o que de novo busca, e aparece.
Exalando bom humor, vida, paixão, simplicidade, anos e anos a menos, carisma e entusiasmo, Bernadette é o que chamo – sim, você já sabe – de mulher de peito.