Artista da vida real
Mesmo fora do circuito literário, por conta de um hiato que já dura oito anos, Oscar Gama Filho dá uma aula sobre o sentido da arte
por Donna Oliveira | fotos Samuel Vieira
O mar azul exibe sua volúpia em ondas que chegam mansinhas à areia em forma de fina espuma branca que se dissolve calmamente, formando bolhas. Sob o olhar atento dos pais, crianças saltitantes soltam gritinhos agudos enquanto brincam em toda a extensão de areia, deixando que seus pés sejam lambidos pela água da praia. Casais namoram. Mulheres tomam sol. Enquanto o dia corre feliz na Praia de Itaparica, em Vila Velha, num mundo não tão tão distante, do outro lado do calçadão, Oscar Gama Filho escreve.
O apartamento fica no 12° andar de um amplo prédio de classe média. Lá de cima é possível ouvir a movimentação da orla, o rugir do mar, os ruídos dos carros, os gritinhos das crianças; o som com eco de sossego. Num canto da casa, há expostos livros, poemas, retratos de viagens, bibelôs, ilustrações e peças de arte. Ali, também, ficam as várias gavetas que guardam manuscritos de obras prontas e inacabadas, escritas a mão em cadernos ou datilografadas em folhas a4, já amareladas, com diversas observações a caneta. Desde 2001, Oscar está num hiato. Não publica mais.
– Se desencantou?
– Não é que me desencantei, pois continuo encantado; é uma visão mais ou menos realista de mundo. Se houver uma demanda social pedindo: “cara, vai fundo. Faz um romance”, eu faço. Se houver um convite, eu chego em cima. Não vou recusar. Mas, não tenho esse convite de alguma editora. Não tenho tempo para ir a uma editora do Rio que vou perder tempo de trabalho. Sou tímido. Prefiro ficar na minha e não publicar.
Concursos literários, a grande oportunidade – hoje cada vez mais escassa – para muitos escritores receberem verba para publicar seus livros, é uma alternativa fora de questão para ele.
– Artista não é cavalo de corrida. Eu entrei em um ou dois concursos na década de 1970. Quando não fui selecionado, nunca mais quis. Fiquei tão triste, tão amargurado, que achei que não compensava. Concurso não serve para humilhar ninguém.
Oscar é autor de livros que foram bem recebidos dentro e fora do Estado. Com Razão do Brasil em uma sociopsicanálise da literatura capixaba (1991), foi o segundo capixaba publicado pela José Olympio. Relógio Marítimo (2001), antologia lançada pela Imago que reúne desde os seus primeiros poemas até escritos inéditos, foi um convite do membro da Academia Brasileira de Letras Carlos Nejar para fazer parte de uma coleção de poesias novas. É dele, também, Teatro Romântico Capixaba (1987), primeiro livro de um autor do Espírito Santo a ser lançado pelo Instituto Nacional de Artes Cênicas. E outros mais.
Fins biográficos
Para fins biográficos, Oscar é um capixaba de 51 anos nascido em Alegre. Descende de barões e viscondes brasileiros, a nobreza decadente, mas com título. É filho da primeira mulher a publicar contos no Espírito Santo, Maria da Conceição Pinheiro Gama (que chegou a ganhar cinco prêmios na Revista da Semana, na década de 1940), e do ex-deputado e compositor Oscar de Almeida Gama. Tem paixão pela Itália. É devoto de São Francisco de Assis. Tem uma relação bem peculiar com Deus, que vive lhe falando coisas. Mas que fique claro ao leitor, como ele pontua ao longo de toda a entrevista, Oscar é um católico não-religioso. Não vai a missa, não acredita na igreja como uma instituição. É anarquista, mas um anarquista brando, não do tipo que joga pedras e bombas aqui e acolá.
– Acredito que de vez em quando Deus fala comigo. Rezo o Pai Nosso, abro a Bíblia e aí lá está a mensagem. Eu nunca pergunto. Acho isso um saco. Deus pediu que eu acreditasse nele na minha forma maluca. Desse jeito, posso falar mal de padre, da igreja católica.
Ele é de um tempo em que alunos da Ufes – Universidade Federal do Espírito Santo, a maioria comunistas e anarquistas, se reuniam para discutir arte, a dura política da ditadura e beber cerveja. Eram grupos de intelectuais, artistas, sonhadores, românticos, ideológicos, boêmios, engajados e geniais em seus desvarios.
No início da década de 1980, o RU – Restaurante Universitário da Ufes aumentou o preço do bandejão. Os estudantes chegaram à conclusão de que queriam implantar um ensino pago no Brasil. Montaram um caixa paralelo para lutar contra o aumento. Os tickets deles não foram aceitos. O jeito foi partir para a revolução. Oscar, na época estudante de Psicologia, foi um dos alunos – que hoje têm altos cargos no governo, são políticos, professores, escritores etc. – que participou da tomada do RU. A imprensa foi chamada. Os freezers abertos pelos “rebeldes” para mostrar como a reitoria se banqueteava com perus e cidras velhas.
– Ficaram todos ali, tocando violão e fazendo comida para todo mundo. A reitoria não permitiu a entrada da Polícia Federal. Ficamos lá, 15 dias. Já não era novidade no noticiário. Acabou a comida, que era horrível a que a gente fazia. Ninguém ligou pra gente. Voltamos para casa.
Como hoje os tempos são outros, mesmo que a juventude não tenha passado há tanto tempo assim, Oscar não mais é um boêmio. Optou pela reclusão junto à esposa, a pedagoga Silvana Delazari, a sua Sil. A culpa nada tem a ver por ter entrado na casa dos 50. É que papos profundos, geralmente, passam longe das mesas de bar, como era outrora. A superficialidade incomoda intensamente o psicólogo e escritor, que se refugia desse mal em seu consultório, onde os pacientes falam coisas profundas, e melhor!, ninguém mente.
Provações de Jó
Oscar sempre foi muito ativo. Há alguns anos, nadava 5 km, corria 15 e jogava bola. A vida tem dessas esquisitices ocasionais – ou não – que nos colocam à dura prova. Talvez seja para mensurar a força que temos de reserva para estar vivos. A resposta, quem tem? Caso é que o escritor viu toda sua rotina virar de pernas pro ar quando teve uma tendinite nas mãos, e precisou conspirar sozinho contra o universo para vencer essa batalha. Seu consolo? Jó e suas provações.
Com as mãos doentes e sofrendo dores profundas que não eram resolvidas com fisioterapia nem cortisona, ele não conseguia comer. Não podia tocar sua guitarra Pérola Negra, dirigir, escrever, e ser útil aos amigos, que foram se afastando. Perdeu o pouco que tinha na época. A casa, que era sempre movimentada e festiva, esvaziou-se. Sofreu a doença por dois anos. Mas antes do fim da prova, conheceu Jó e seu – como ele próprio intitula – delírio religioso.
– Nesses dois anos, Deus me chamava para conversar. Eu abria a Bíblia e dava: provações de Jó. Parece até que é certa doideira.
Ele dormiu e sonhou que usava hipnoterapia em suas mãos e melhorava. Acredita que era um mandado de Deus. Entretanto, a técnica não existia. E agora, Oscar?
– Estava ferrado. Por que não me tratar? Desenvolvi a técnica e em seis meses estava legal. Assim como com Jó, tive todos os meus amigos de volta. Ele tira as coisas, e vai encaminhando minha vida na direção que Ele deseja. Mas, não sou religioso.
Em seu tal delírio religioso, Oscar atribui a ordens divinas seu pedido de demissão da Ufes para se dedicar ao seu consultório particular; e mais tarde, do time de futebol Desportiva. Foi Deus, também, que lhe incentivou a criação de técnicas em que não é preciso o uso de drogas nos pacientes, apenas estímulos naturais. Sendo Deus, intuição ou qualquer coisa que o valha, fato é que todas as vezes que ele deu ouvidos ao seu desatino místico, acertou na mosca e marcou pontos.
Não querendo bater na tecla das provações nem nos calejados calos de Oscar em lidar com elas, é preciso dizer que são desventuras, também, que o levaram a optar por um hiato literário, como já dito acima.
A fim de conhecimento geral, escritores recebem da editora – teoricamente – uma margem de 10% das vendas de seus livros. Teoricamente porque, na prática, com Oscar não foi assim por duas vezes. Por Razão do Brasil ele recebia uma quantia paupérrima todo mês. “As vendas não vão bem”, alegavam. Dois anos após a edição da obra, a José Olympio entrou em contato para vender abaixo do preço de capa, para Oscar, os 20% que não haviam sido vendidos. – “Cadê a minha grana dos 80%?”, indagou. Pois é, Razão do Brasil foi apreciada no país, com resenha em jornais como Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e O Globo. A cor do dinheiro ele não viu.
Para publicar Relógio Marítimo, Oscar pagou 15 mil a Imago. Ele recebia mixaria de direitos autorais. Tempos depois, a editora entrou em contato para repassar ao escritor o restante de sua obra que não havia sido vendida. Quando quis saber a respeito da quantidade, foi constatado que, praticamente, toda a edição havia sido vendida com sucesso. Prejuízo, mais uma vez.
Não é preciso dizer com todas as letras que Oscar é um lutador. A característica é tão marcante que, nem que quisesse fazer suspense, entrelinhas seriam indiscretas para comportar a visível garra com que ele captura suas conquistas.
– A vida é comparada com a arte da luta. A cada momento você tem que estar preparado para os golpes e imprevistos que vai ter que combater. Você tem que saber transformar isso em beleza, sabedoria. Em alguma coisa maneira.
Oscar é do tipo que faz coro a Dostoievski, que já “profetizava” que a beleza salvará o mundo.
Arte pela arte
No casarão do século 20 dos Gama, era natural membros da família lendo espalhados pelos muitos cômodos da casa. Lia-se todo dia. Cartola, Chico Buarque e óperas diversas se misturavam aos acordes do piano do pai. Nesse ambiente, a mãe escrevia romances. Daí vem a referência de artes de Oscar. Além de escritor, é compositor, músico – tinha um grupo de blues, o Samblues –, crítico literário, teatrólogo e artista plástico.
– O que procura com sua arte?
– No momento, iluminar a mim e às pessoas que convivem comigo. Para ver a beleza, a vida precisa de um algo. A realidade não é boa nem má. Não é feia nem bela. É como você decodifica a realidade que a torna de uma forma ou de outra. Depende de você. A minha arte, o que eu faço, é um processo de decodificar a realidade em direção a coisas que são favoráveis a mim. As pessoas podem ser muito cruéis, muito más. Eu não tenho interesse nisso.
– É questão de treinar o olhar?
– Sim. Não tenho interesse de olhar para algo e ver a parcela ruim.
– Isso não te torna ingênuo?
– Como você viu, são escritas muito amargas. Então, não podem ser ingênuas, não.
Papo minutos antes:
– Sua poesia é pessimista, não?
– Depois da fase que conheci Sil, não.
– Relógio Marítimo eu achei.
– É… – diz, hesitante.
– No poema A Resposta como Invariante Universal Absoluto, você diz que ironiza a exigência de respostas. Entendi que fala de como o ser humano é pueril. Vi outro lado, totalmente diferente.
– Eu era uma pessoa muito amarga, muito triste. Tinha, também, a influência de Álvares de Azevedo e Castro Alves e o mal do século. Na época dessas obras todas, eu era um escritor com outra pegada. Inserido em outro contexto.
– Qual contexto?
– Um contexto estético. Ganhava muito pouco. Não tinha dinheiro, não tinha grana. Vivia martirizado pelas coisas ruins da humanidade, da vivência estética, como artista. O chique era o mocinho morrer no final da fita. O artista tinha que ser um cara mal humorado, ferrado.
No sossego de sua rede azul, embalado pelo constante barulho do mar de Itaparica, pelo bem sucedido casamento e ótima fase profissional, Oscar de olhar treinado enxerga as coisas distintas da vida, a elaborar. E faz metáforas.
– A gastronomia é a arte de transformar o jiló, que não é muito gostoso, em uma coisa maravilhosa. Assim, na literatura, eu transformo coisas amargas em sonho. Em beleza.
O comunista francês Louis Althusser diz que para a arte se difundir, é preciso aparelhos ideológicos estruturais. No Espírito Santo, anos atrás, havia isso. Artistas e agitadores contavam com a Fundação Cultural do Espírito Santo, que acabou. A Fundação Ceciliano Abel de Almeida não publica mais obras literárias. O Instituto Jones Santos Neves já não é mais participativo na literatura capixaba.
– A arte entrou num processo de comércio de oferta e procura. E aí, ela tem que andar com as próprias pernas. Não tem os aparelhos ideológicos de cultura no Estado para fazer isso. Minas tem. Rio tem. São Paulo tem.
Toda essa parafernália problemática tem uma dificuldade central: a falta de público. Oscar não tem mais banda. As apresentações de blues não enchiam. Não mais dirige peças teatrais. – Na última peça que dirigi, só tinham quatro pessoas na platéia, que eram meus amigos. As peças plásticas que cria, são expostas nas paredes de seu apartamento. As produções literárias, destinadas a gavetas.
– É um desestímulo para você ir a público, não para continuar produzindo arte.
Artista como ele é
Entre todas as questões que circundam a postura de ser um personagem ativo na cultura dentro e fora do Estado, Oscar continua artista. – A poesia pode ser uma forma de curar pessoas –, acredita.
No dia a dia, convive com uma série de histórias, dignas de romances pitorescos. Oscar tem um dedo nelas. É artista.
– Ouço a vida das pessoas. Participo desses romances. São idas, vindas, milionários, ex-prostitutas, dependentes químicos e outros tipos mais.
Num dia de outubro, fui ao consultório de Oscar para conhecê-lo, antes de marcarmos a entrevista de fato, que só aconteceu em novembro. Uma senhora sentada na sala de espera perguntou-me se eu era paciente. Respondi que não. Ela então, rendendo elogios a ele, disse que eu não imaginava o triste estado em que ela havia chegado até o consultório, para ser atendida. – Menina, melhorei tanto. Você não acredita –, confessou com brio.
Acredito na paciente em tratamento. Acredito que a arte cura. Acredito que Oscar é um grande artista da vida, das letras, dos delírios religiosos. Do Espírito Santo. Isso falta de público nenhuma, consegue ofuscar.
5 Comentários
Querem melhor entender o ES ? Leiam ,desse mesmo Oscar Gama Filho, livro “Razão do Brasil “, importantíssimo documento supra-sociológico(porque em Oscar Gama tudo é supra ). Um artista no amplo sentido do termo. Um ser devotado à arte qual um fanático se dedica a uma superior entidade. Nunca conheci quem carregasse ,desde tenra idade(e o conheço desde ele com 19 anos) , tamanha bagagem teórica. E teoria que se materializou em efetiva prática.Haja vista as suas peças dramaturgicas ,seus livros, e seus vários Prefácios a livros de outrem.
exelente entrevista , responde a algumas questões , sobre o hiato na vida desse grande artista , esse genio capixaba , isolado no contexto profissional , parabens a todos por essa ideia brilhante , fico muito feliz de rever o mestre .
Tivemos o enorme prazer de conhecer o Dr.Oscar e bastou apenas dois minutos de conversa para percebermos que ele era “O cara”.
Eu e minha esposa, durante toda nossa vida, nunca vimos ninguém com tanto talento, ele é um instrumento de Deus.
Por ser uma pessoa tão especial sabemos que ainda presenciaremos muito sucesso em tudo que fizer, pois sempre coloca muito amor em tudo que faz.
Através dessa entrevista pudemos conhecer um pouco mais sobre sua vida e sua arte,o que foi muito gratificante para nós.
Este site me foi enviado pelo escritor Marcos Tavares, amigo de longa data. Donna foi uma bela surpresa, dessas que tornam gratificante para o entrevistado o momento de expressar-se.
Gostei muito da apresentação do escritor em tempo real, no seu próprio contexto – isso é mágico. Oscar Gama é inegavelmente uma pessoa singular; um escritor e crítico literário que preencheria notoriamente, com estilo inigualável, qualquer página a ele conferida. O que se passa em sua mente talvez a física quântica explique – o eu-poético ( ou a inspiração que ele desperta) parece trafegar em universos paralelos. Oscar é um sedutor que ama a palavra como instrumento de sua arte – a poesia é sempre sua última palavra, ela conduz o longo discurso de uma vida devotada, na forma encantadoramente simples de traduzir-se enquanto pessoa, cidadão comum, ou na complexidade silenciosa de seu olhar solitário – um “relógio marítimo” marca o pulsar desse oceano.
Num dia desses, em reunião na escola, disse em tom confesso que eu era, sim, uma pessoa ambígua, e que por isso não esperassem de mim
atitudes coerentes todo o tempo. o grupo me ouviu atento, assistindo, depois, ao meu acesso de indignação (quase de fúria), ao me defender de comentários que julguei injustos. A poesia já traz na essência essa ambiguidade, no modo como assumimos um eu-poético, que é um Eu fictício e de certa forma nos recria, faz de nós um outro ser, passível de ser tocado pela imaginação das pessoas, mais do que pela razão. Não sei bem onde quero chegar com isso, mas o fato é que para o poeta, ou ou artista, e acredito que para todas as pessoas, é preciso transformar a dor em arte, seja literatura, ou arte culinária, o que for, mas arte,algo que registre essa dor e suas múltiplas faces – é como juntar o mel e o limão e aquecê-los, até que essa mistura vire caramelo, e tenha mil e uma utilidades, tenha um odor agradável e chame as abelhas.