Aprendiz do despreparo
A literatura como bússola da vida
por Donna Oliveira | fotos Samuel Vieira
Era quinta-feira. Agosto despedia-se do ano num clima lamurioso. Vitória, que combina com raios e mais raios de sol, decidiu naqueles dias, literalmente, fechar o tempo. O ar era frio, e a cidade, molhada que só por causa da chuva que se desprendia de nuvens carregadas e jorrava por essas bandas. Tempo ruim para ele, que olhava desolado por trás dos óculos Pierre Cardin para a grama molhada do campus da Ufes – Universidade Federal do Espírito Santo e lembrava-se de Safadeza, desaparecida havia três dias. Tocou, ele, a caixa de remédio que carregava no bolso inferior do casaco ocre acinzentado. A baixa temperatura acionara imediatamente sua alergia e asma, que não chegaram a gerar mal estar que pudesse atrapalhar nosso encontro.
Casé Lontra Marques é, antes de ser o “pai” de Safadeza e Mordomia – gatas que cuida junto com a esposa, Rafaela Scardino –, poeta. Antes de ser poeta, conviveu com a compulsão de escrever diariamente por perturbadoras horas a fio. O motivo? Não sabia. Descobriu há pouco: era o medo de não ser capaz de escrever.
– Me perguntava: será que sou capaz? Isso me atormentava. Eu escrevia contos, ficção. Achava-me incapaz para a poesia, e não sei o porquê. Hoje sei que sou incapaz. Isso não é meu impedimento. É minha condição para escrever.
Nada de escritos aleatórios ou expurgos, apenas. Casé levava a frenética atividade a sério, e escrevia como se, de fato, estivesse a elaborar um livro, mesmo que nunca chegasse a publicá-lo. Seguia nesse ritmo e, foi após a conclusão do terceiro volume que ele, finalmente, parou de se cobrar e permitiu a si mesmo uma pausa para respirar. Foi nesse momento de pulmão e mente abertos – em suas andanças pelo calçadão da orla da Praia de Camburi, onde adora caminhar; nas literaturas que dão sentido, e muito, à sua vida; nos seus encontros com o mar e, até mesmo nos momentos de cuidado com Safadeza e Mordomia – que brotou do seu corpo uma nascente límpida e livre. Era a poesia de mundo, de seres humanos e de inquietação, exalada em seu corpo com pouco mais de 20 anos, ávida por correr para o papel. Para vidas.
Numa enxurrada de palavras, sentidos, tatos e reflexão, Casé escreveu 30 poemas. Mas gosta de números ímpares: queria 77. A nascente era selvagem em seu corpo. Ele escreveu 79. Os últimos ditados para a mulher, Rafaela, no pós-operatório de uma cirurgia no nariz. Foi aí que terminou de dar à luz Mares inacabados, seu livro de estreia, lançado em 2008.
Menino Casé
O bacharelado em Letras e mestrando em Literatura, que ironia, tardou a aprender a ler. Tampouco teve uma infância de leitura. Foi na época de férias na casa da avó materna Luiza, em Cantagalo, cidade do interior do Rio de Janeiro, que o menino teve verdadeiros contatos com o que, hoje, representa seu sentido de vida.
– Eu deveria ter passado pela alfabetização. Estudava numa escola péssima de Vitória. A gente brincava de corrida de tampinha na frente da sala de aula que era de chão batido. Quando chovia muito forte não tinha aula porque a telha saía do lugar e entrava água em tudo. Quando fui morar com minha avó, na época em que meus pais se separaram, cheguei em Cantagalo – cidade que faz questão de frisar que foi onde nasceu Euclides da Cunha – e ela perguntou: “Gente, esse menino não sabe ler?” Ela me matriculou para fazer aulas particulares, e aí eu aprendi a ler nesse verão.
A infância, aliás, não foi das mais fáceis. Filho de Bianca Lonnes Lontra e Ronald Oliveira Marques, que foram pais ainda adolescentes, aos 17 anos, ele teve de se estruturar entre a difícil convivência dos pais, que juntos, eram aptos a divergências. Nascido em Volta Redonda, Casé conheceu Vitória aos cinco anos de idade, quando seu pai pediu transferência, pois queria morar na cidade onde passou a lua-de-mel. Dois anos depois, os pais se separaram. Com a mãe, se instalou na casa da avó, e permaneceu até os 11, quando voltou para Vitória, a fim de morar com o pai.
Corpo e mundo
Casé é do tipo tímido. Conversa olhando enviesado, ora por cima, ora por baixo. Tem o rosto quase sempre soturno, atenuado, algumas vezes, por uma linha de sorriso que sua para aparecer. Mas, não tem feição triste, tampouco carrancuda. Em meio ao aspecto franzino que ostenta, o que mais evidencia, quando se deixa desvendar aos poucos, é a curiosidade vigente. Impassível é um termo que passa longe de sua personalidade. Tanto que franze o cenho para dizer que não tem sentimento de pertencimento e, por isso, não se sente fluminense nem capixaba. Mas, Vitória é a cidade de sua apreensão e onde seu corpo gosta de viver.
Por sinal, corpo é um tema decorrente na poesia de Casé. É do corpo que parte sua reflexão de mundo, as inquietações que o acompanham, a inspiração do que escreve.
– Aquilo que penso do mundo é pensado de uma forma e não de outra porque tenho um corpo, não outro.
Quem lê os poemas escritos por Casé, logo pensa que ele tem uma escrita quase que estritamente cerebral. E logo, aparece a figura do corpo, que muda todo o prisma da sensação inicial da leitura.
– Não quero uma literatura preponderamente racional. Por isso, a presença do corpo é muito importante. O corpo, nos poemas, é compreendido como espaço de sensibilidade.
O corpo, de fato, personifica sua poesia. Afinal, nesse pequeno espaço físico tomado por uma amplitude social, é travada uma série de conflitos. É o campo do prazer, da dor. Do prazer doloroso. Da dor prazerosa. É a ponte do ser humano com o mundo. É a representação da vida. Da poesia de Casé.
Literatura, uma paixão
Foi a biblioteca do Cefetes – Centro Educacional Federal de Educação Tecnológica do Espírito Santo, onde Casé cursou o ensino médio, que lhe abriu as portas do mundo da literatura. Então com 15 anos e amante de desenho, ele queria fazer Artes Plásticas. Foi no local que, a primeira vista achou enorme e fascinante, onde ele começou a se debruçar sobre os livros. Apaixonara-se.
– Comecei a estudar História da Arte. Depois parti para os livros de literatura, Filosofia, Psicologia, ioga e até sobre xadrez.
O mundo das artes continuou fazendo parte de sua vida, mas não as plásticas. Ainda no Cefetes, decidiu fazer Letras por causa da literatura, que já era como um membro de seu corpo, tamanha a dimensão que ganhara nele.
– A minha forma de ler Filosofia, a minha forma de ler Psicologia, minha forma de me interessar por Artes Plásticas e por música, até hoje, só existe como existe por causa da literatura. Minha forma de viver o amor, por exemplo, só existe como existe por causa da literatura. A literatura é uma procura para existir. É parte do meu corpo. Eu tenho como órgão. É uma espécie de pulmão. Uma forma de respirar. E é assim que respiro bem: com a literatura, dentro da literatura, pensando literatura, sentindo literatura.
Para estar próximo da literatura Casé cursou Letras, na Ufes. Na graduação, dedicou-se a obra de João Gilberto Noll, que o influenciou no modo de interrogar as questões presentes. A poetisa paulista Orides Fontela é presença constante em suas leituras. Não à toa, o poeta a escolheu para estudar, atualmente, em seu mestrado de Literatura, também na Ufes..
O curso de Letras proporcionou a Casé muito mais que uma aproximação da literatura. Foi lá que conheceu a esposa, Rafaela Scardino, e o amigo e professor, Alexandre Moraes. Duas pessoas de suma importância para sua literatura, e para as quais ele diz dedicar sua obra, pois são seus primeiros leitores.
Após o reconhecimento de Rafaela e Moraes, foi a vez da pesquisadora e escritora Bella Josef, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); dos professores e escritores Maria Esther Maciel e Luis Alberto Brandão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do crítico literário Wilberth Salgueiro elogiar o trabalho de Casé. Reconhecimento, este, que lhe ajudou a abrir as portas de editoras nacionais e ter seu trabalho divulgado de forma mais ampla.
Escritor a quatro mãos
Movido por tudo que desconhece, sempre em busca de descobrimentos, Casé escreve, escreve e escreve. Seu turbilhão de indagações e possibilidades humanas geram vários textos e livros, escritos ao mesmo tempo. Em suas contas computa quatro livros prontos e outros quatro em andamento. Para ele, o exercício da leitura e da escrita são o aprendizado do despreparo para o mundo.
– Escrevo porque desconheço, e desconheço tudo o que escrevo. Escrevo, também, para tentar estar no mundo. Lido com coisas que não são minhas. Escrever é respirar a poeira do mundo. É viver a pobreza que não é minha. É viver a doença que não é minha. Essa é uma forma de eu aprender muita coisa.
O exercício de escrita de Casé pode ser tido como uma espécie de exorcismo. Além de não costumar ler o que escreve, quando se arrisca, não se enxerga ali. Não lhe parece ser seu. É como se algo íntimo o movesse a escrever. Depois de escrito, a intimidade se esvai, restando a típica sensação de estranheza de quem acorda ao lado de um amante desconhecido após uma noite de sexo.
– Quando acabo de escrever um livro, aquilo deixa de fazer parte do meu corpo, e passa a ser algo estranho para mim.
Após lançar Campo de ampliação, em julho deste ano, Casé já se prepara para lançar Densidade do céu sobre a demolição. Apenas com 23 anos, e com o terceiro livro no forno, talvez você ainda se pergunte o que ele busca com seu peculiar apetite voraz pela literatura. A resposta? É ele mesmo, Casé, quem dá.
– Eu procuro, com a literatura, viver de forma mais intensa. Eu penso que existe uma vida, e que a vida é possível. Eu acho que não basta o sangue circular, dormir e acordar para estar vivo. Estar vivo é uma coisa muito delicada. Estar vivo é uma relação de afeto, uma relação de proteção, uma relação de desespero, uma relação de êxtase. Estar vivo é um trabalho. É uma construção. A vida gera vida. É uma interação sempre.
Na interação com a vida e circundando as questões que a permeia, Casé constrói sua obra literária, que há pouco começou a nascer. E promete!
10 Comentários
Parabéns pleo texto. Tenho a felicidade de trabalhar com Bernadette Lyra, amiga e inspiradora. Você conseguiu captar o espírito dela e o traduziu para uma belíssima forma.
Excelente a abordagem da persona Bernadet Lyra. Dá-nos uma satisfatória dimensão da mulher e da escritora. Leitores dela precisam conhecer essa matéria (Matéria ? Há aqui mais espírito,sim) . Em lendo essa página e a que foca Adilson Villaça já podemos ter certeza de que se constitui em obrigatória leitura para quem estude ou aprecie as Letras produzidas pela gente do ES.
Parabéns a ambos (Donna e Bernadette) pela bela matéria, singela e inspiradora.
adorei rever minha professora, delicada, bela,sábia e que trinta e tantos anos atrás me levou para um mundo lírico dos livros…Felicidades professora,a senhora merece todas as homenagens do mundo!!!!!!
Maravilhosa! A literatura dessa Capitoa é mais forte que o mar.
Parabéns a Donna Oliveira (texto)e Samuel Vieira (fotos) por terem capturado um pouco desta grande mulher que é Bernadette Lyra. Alguns anos atrás meus filhos, que eram pequenos à época, me disseram que ela era minha “amiga sábia”. Este aposto permance, mesmo quando deixamos de nos ver com a frequência que gostaria.
Quero dar-lhe meus parabéns pela forma poética,bela e comovente ,que nos apresenta nossos poetas.
Sou sua leitora constante.
Heliana Mara
eu precisava saber a historia do conto as contas no canto mas foi interessante saber isso!
Leitor de toda obra produzida por Casé Lontra Marques, inclusive seu último livro Saber o sol do esquecimento, posso dizer que em sua precocidade poética Casé já se enquadra no rol dos poetas, que como dizia Mario Quintana, sabem ler o leitor. A essencialidade do corpo em sua poesia é inerente a juventude do autor.Acrescento que para além do que Mario Quintana disse, o grande poeta é aquele que sabe escrever no leitor. Algo que Alexandre Moraes conseguiu em seu livro Preparação para o exercício da chuva; creio que com o amadurecimento de sua escrita Casé Lontra Marques logo saberá ler a si próprio, ler o leitor e escrever no leitor, minha expectativa é grande. Conhecer o jovem poeta é uma honra.
Bela história de vida, Bernadette Lyra! Amei conhecer peculiaridades da escritora e da mulher – ambas se completam em uma história única de vida, que nos inspira, a nós, leitores, muita paixão e inquietude. Confesso que conheço pouco de suas obras. Mas há um momento certo para cada leitura. Talvez este seja o meu momento com Bernadete Lyra.
Estendo meus cumprimentos à Donna, pelo estilo no trato com os autores;sua linguagem poética compõe, com muita sutileza, o perfil de cada escritor.
Um grande abraço!
Ana Cristina