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A Panelinha

por Donna Oliveira

Esta seção iria se chamar comparsaria. Seguinte, lia num dia passado não me lembro onde nem como a Piauí de número 45. Lá pelas tantas não sei quantas, já que folheio revista de trás para frente, deparei-me com Francisco Buarque de Hollanda e seu discurso de arrebatar almas – porque somente coração é somente pouco. Chamava-se, o artigo, Os dicionários de meu pai. Falava ele com aquela desenvoltura meu-deus-como-pode-ser-tão-perfeito, que lhe é peculiar, sobre um dito dicionário analógico da língua portuguesa de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo que herdou de seu pai.

– Com esse livro escrevi novas canções e romances, decifrei enigmas, fechei muitas palavras cruzadas. E ao vê-lo dar sinais de fadiga, saí de sebo em sebo pelo Rio de Janeiro para me garantir um dicionário analógico de reserva. Encontrei dois, mas não me dei por satisfeito, fiquei viciado no negócio. Dei de vasculhar livrarias país afora – relatou.

Um Chico ironicamente ressentido conta sobre a publicação da segunda edição do então raro dicionário, o que o invalida de ser praticamente o detentor do monopólio dos fascículos da obra. – Trata-se para mim de uma terrível (funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia – desab(af)ou.

Tal foi minha surpresa quando, na busca por um Houaiss perdido numa megastore de Vitória, deparo-me com a preciosidade de Chico – não ele encarnado, mas o livro. Fortuitamente folheio de frente para trás. Na página V, por uma sina-sorte-ventura, encontro com o homem e seu texto, meus conhecidos.

Comprei. Levei os Franciscos dos Santos Azevedo e Buarque para casa. Escarafunchei o dicionário à procura de uma palavra que sintetizasse esta seção ah!, que não explicada antes, é dedicada à publicação de produções dos escritores do Espírito Santo ou partes de, ou seja, uma cooperação deles com o Panela. Topei foi com a palavra – adivinha? – cooperação. Que êxtase. Que coadjuvação, apoio, contribuição! Corri para as analogias e logo esbarrei em comparsaria. Pregustei.

Daí lembrei de outro grande, este de terras espíritossantenses, Reinaldo Santos Neves, que me falou sobre a ironia; e admoestou: a ironia salva – tá certo que quando o disse se referia à literatura. Sendo assim, revesti-me de couraça reinaldiana e o temor por qualquer interpretação pejorativa dissipou-se. Precisei descer só duas linhas para chegar à titulação: nomeado está isso aqui como Panelinha!

Graças a Reinaldo, Chico e Francisco estamos salvos. Amém.

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