Achiamé, o poeta

A saga do historiador que busca o reconhecimento da sua poética

por Donna Oliveira | fotos Samuel Vieira

Os olhos azuis varrem a movimentada rua entremeada entre as grades da varanda da cobertura do prédio 766. Vagueiam por trás dos óculos enquanto a cabeça trabalha. Olhar pra dentro de si mesmo é difícil. Então Fernando Achiamé olha para acontecimentos de um tempo findo no século passado e faz caminho inverso: olha a história, olha a rua, olha a si. E se encontra a falar de seu eu, coisa que o desconcerta na cadeira e faz o corpo acompanhar seu fitar e girar para a vista de uma Vitória que se silencia com o cair da noite.

Permissão para uma pausa, leitor? Antes que dê continuidade à leitura, vamos tirar uma história a limpo. Que fique entre nós. Quando leu o título acima, soletrou em sua mente A-xi-a-mé ou A-qui-a-mé?  A dúvida sempre surge quando é citado o sobrenome do poeta. Vamos aos fatos. Fernando descende de libaneses – e índios, suíços, italianos e portugueses –, por isso o nome de família é lido com som de xis. O folclore da confusão foi gerado pela italianada do Espírito Santo, que converteu o nome para sua origem ítalo e trocou a sonoridade do xis pelo quê. Agora informados – e não que ele importe com isso, até se diverte –, prossigamos.

Olho da história

Nos idos da década de 30, Ceny Júdice foi um bem sucedido tropeiro na cidade de Águia Branca, noroeste do Espírito Santo. Mais para cenário de faroeste, na época. Até chegou a ter duas tropas. Comerciante, também, mudou o armazém para Colatina a fim de casar-se com Felisbina de Moraes e ir morar por lá. Empreendedor que era, comprou uma lotação e colocou para rodar. Foi aí que fundou a maior viação do estado, a Águia Branca, vendida por ele assim que completou dez anos.

Ceny foi filho de Kalil Achiamé, libanês fugido de Beirute que morreu aos 33 anos em duelo com um árabe que quis saber de sua mulher. A jura de morte matou os dois e deixou mãe com filhos órfãos de pai, num lugarejo chamado São Felipe, hoje Atílio Vivacqua. Felisbina foi filha do empregado de comércio e poeta Moacyr de Moraes, que brigado com a política de Vitória embarcou às avessas num Ita – normalmente esses navios a vapor traziam gente do norte para o sul – indo sem avisar à família, parar em Belém do Pará. Fez a rota oposta de Dorival Caymmi, que cantava: Peguei um Ita no norte / e vim pro Rio morar / Adeus, meu pai, minha mãe / Adeus, Belém do Pará. Conheceu Raimunda, filha de um coronel Pinheiro. Moacyr teve os filhos e, aos 33 anos, foi acometido de febre súbita. Morreu novo assim, também.

Ceny e Felisbina, com tanto folclore e drama familiar na bagagem, mudaram-se para a capital quando Fernando, segundo filho, tinha cinco anos. Criaram os filhos com nomes compostos, à moda da época, numa roça chamada Praia do Canto, hoje o bairro mais badalado da cidade onde, praticamente, não há nenhum resquício dos sítios que marcaram suas terras nos tempos de outrora.

E, assim, Lígia Maria, Fernando Antônio, Geraldo Augusto e Virgínia Augusta foram criados numa chácara, entre porcos, gansos, marrecos, jaqueiras, mangueiras e valas de peixes. Com uma história de família dessa, em que tem até parente que dá nome a escola, Achiamé só podia ter virado historiador.

Olho da rua

Fernando queria ser diplomata. Não poupou o sonho e foi estudar em Brasília, indo instalar-se na casa de um tio. Tinha quinze anos e a capital, cinco. Ambos crescendo juntos. Daí veio a ditadura militar, que no fatídico ano de 65 tomou com a força policial a Universidade de Brasília, a UnB, gerando seu quase fechamento. O clima era de perseguição política e cassação dos direitos civis. A UnB era considerada uma ameaça e, por isso, Fernando teve de desistir, não dos estudos! Rumou para o Rio de Janeiro em 67 e foi terminar o clássico – em que tomava lições de línguas, letras, história; enfim, humanidades.

Tudo ia muito bem. Com sucesso Fernando passou, em 68, no vestibular para Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ. Aí veio intervenção. Nem concluiu o segundo ano do curso e foi expulso da universidade. Por ser questionador e representante dos alunos em assembleias, foi considerado subversivo. Professores também foram expulsos. Era a época do dedo duro e da repressão. O jeito foi voltar para Vitória e continuar a saga.

Em 71 tentou vestibular na Universidade Federal do Espírito Santo, a Ufes. Passou em primeiro lugar para História. Quando estava no meio do curso: espera aí, a punição! Quando expulso de uma faculdade, a penalidade era que você ficasse três anos sem prestar o exame de ingresso em instituições de ensino superior. Fernando foi expulso da Ufes. Já era funcionário público e um estudante com a vida caminhando em meio a intervenções políticas – e isso porque nunca foi filiado a partido nenhum.

As pedras no caminho já estavam um pouco demais e Fernando bateu pé: queria se formar em História! Parado não ficou. Escolheu um advogado, arrumou um requerimento e, com a ajuda da família e de políticos conhecidos, foi bater na porta do então ministro da educação, Jarbas Passarinho, em Brasília, que deu ordem de reintegração. Formou-se, junto com sua força inabalável de vontade, em 74.

Ainda como estudante, foi convidado pelo professor Renato Pacheco, grande intelectual capixaba, a estagiar no Arquivo Público do Estado. Descobriu nesse período o que era a fascinação. Depois de formado, aos 25 anos, foi nomeado diretor do Arquivo Público. No ofício ficou por nove anos. Dentre os cargos públicos que ocupou, foi como fiscal de rendas que se aposentou, ano passado. Sem contar que lecionou no curso de Arquitetura, na Ufes, por 15 anos. Mas dessa vez quem decidiu sair foi ele.

Após contar a colcha de retalhos que costurou até chegar aqui, mais à vontade comigo e contigo, leitor, Fernando permite-se olhar para dentro de si mesmo e o binóculo é a poesia. A revelia não durou muito tempo. Ainda bem.

Olho de si

– Gente, vamos falar de poesia, gente. É o que quero falar. Eu concordo com Rubem Braga: é muito constrangedor falar da gente. Tem gente que adooora, eu não. Eu sou tímido. Não parece, mas eu sou. Acho que depois de velho a gente vai perdendo, vai tomando mais coragem.

Próximo de lançar seu segundo livro de poemas, Livro Novíssimo, conseguinte de A obra incerta (2000), Fernando reclama de que só recentemente tem começado a ser visto como poeta, tendo em vista que sua produção na área histórica é mais extensa. Para ele, a arte é que fica. Além dela, endossa que o que também perdura é a santidade.

– Tem muito santo velho aí, você não acha? E muito artista velho também.

Amparado na ironia e no desejo de permanência, dá como Livro Novíssimo o nome da nova obra porque literatura não envelhece. As boas permanecem, alheias ao tempo, e sempre com aclamação. Daqui uns cem anos a obra permanecerá, enquanto seu autor não passará de poeira, matéria que se foi. É essa continuidade da arte que encanta, e atrai. Num mundo em que a efemeridade predomina, o perene será sempre uma joia rara.

Agora, aposentado, os planos de Fernando são promissores. A alma de poeta parece ter encontrado caminho para deslanchar. Para dar voz a isso, precisa se entender com o tempo e dividir-se entre as pesquisas históricas e a dedicação poética. Enfrenta, ainda, a preguiça de começar um livro e a falta de oportunidade para tal. É por causa disso que demorou dez anos para concluir o segundo livro de poemas. E tem mais percalços…

– Escrevo menos poesia, mas é por falta de tempo. Deixo de escrever poesia para fazer sabe o quê?

– Pesquisar e escrever livro de história.

– Um. E a segunda coisa é que eu tenho que providenciar a limpeza da caixa d’água.

– Como assim?

– Síndico! Eu digo que isso é uma âncora da realidade.

Rótulos são limitações e, todavia, pejorativos. Oscar Wilde, gênio, advertiu que definir é limitar. Mas, se Fernando se restringisse a um adjetivo, seria sonhador. E a vida é o que senão sonho?

– Cervantes falou… Cervantes? Sei lá, um espanhol desses aí: Vida é sonho. E Buda, né? Vida é ilusão. Ótimo, eu também acho que seja. Então vamos sonhar! E Deus, o imponderável, tem que querer. Eu sou prático também. Sou síndico deste prédio. É uma contradição. Mas vou largar em fevereiro porque tá enchendo o saco.

Fernando utiliza âncoras para se prender à realidade e não viver somente a voar em devaneios que deseja que se cumpram na vida real. A rotina o estabiliza. Imagina feitos de todos os tamanhos. Tem um pé no chão e outro a descobrir novas superfícies.  É assim que é, aos 60 anos.

– Para não sonhar muito, fico preso nessa realidade, nessas âncoras. Por isso vou ser síndico, ser diretor do Arquivo Público. Quer coisa mais burocrática que isso? Porque, olha, a poesia é perigosa. Todo poeta é um pouco doido manso.

Nada de planos mirabolantes, ou, tá, um pouco deles. Sonhar não é só virar nome de rua ou ir à lua. Encaixam-se grandes pequenezas como namorar certo alguém, mudar de emprego, trocar a cor da casa, ter mais um cachorro ou escrever um livro. É desejar o que faz bem para a gente.

– Te frustra quando um sonho não acontece?

– Ah, sim. Nem todo sonho se realiza, né? É fundamental sonhar, sempre sonhar. Há um certo idealismo, e muitas coisas se realizam. Há coisas que só podem se realizar com sonhos. Primeiro tem que sonhar.

Essas características ficam claras quando se lê a poética de Fernando. Lá tem tudo. O romantismo, o erotismo, o engajamento social, a releitura urbana de Vitória, histórias e muitas histórias estão marcantes. Tudo com um traço peculiarmente otimista. Vê o bom até quando fala do ruim. Porque para Fernando a vida é sempre para cima. Uma constante crescente.

Ler Fernando Achiamé é limpar o olhar. Sua poesia é clara, solar. Conversar tête-à-tête com ele não é diferente. É um ser de bem com a vida até quando não realiza o que projetou. Anda para frente e tudo bem. O lado bom nunca é obscurecido. Em revés disso, é realista – nem que forçado por suas âncoras – e sonha com minúcias, como reparar goteiras.

É o tipo que não se sente muito à vontade em declamar poemas, mas gosta de lê-los. Outra característica é não sabê-los de cor. Retém até alguns de Drummond decorados na época do estudo clássico. Mas seus, não. E não o peça para explicar o que escreve. Afinal, tem a mesma graça de explicar uma piada. Abrace o enigma e destrinche-o. Embora a poesia seja ficção, as de Fernando têm alto teor autobiográfico. Assumido.

– É muito autobiográfico o que escreve?

– É, Donna. Experiências. Nessa parte erótica então… muito autobiográfico. Mais outras coisas também.

Na beira-mar de manhã nevoenta
acariciei a saia dos seus pequenos lábios surdos.
Com espanto, eles logo ouviram:
– Para, não é por aí.

Dentro de lenta tarde automóvel
apertei a seda dos seus pequenos lábios cegos.
Pasmos, eles logo enxergaram:
– Por que essa tesão toda?

Debaixo de um chuveiro noturno
toquei firme os seus pequenos lábios mudos.
Em espasmos, eles logo gritaram:
– A duração do desejo é a mesma da vida!

Da varanda para a cozinha onde o papo se estende à mesa farta de delícias, Fernando perambula entre a história e a poesia. Fala de celular, avião, contradições humanas, do mundo de hoje, engajamento social e até questiona minha pauta. Segundo ele, nenhuma pergunta havia sido feita, e pede que prove o contrário. Mostro a maioria das perguntas riscadas. Em tom confessional e, por vezes, de professor como foi, ensina, questiona e se interessa por minha história pessoal enquanto a conversa vai de ponta a ponta.

– Quais são os quatro cavaleiros do apocalipse?

– …

– Seu pai é pastor, hein! Pelo amor de Deus, Adonai!

– Ai…

Fala do apocalipse, deparado na história enquanto relativizávamos o mundo de outro com esse de hoje. Acalma meu medo do livro das revelações ao falar de simbolismos.

- O mundo foi criado em seis dias. Nem seu pai acredita nisso.

Rimos.

Fernando, antes incomodado com a situação da entrevista, que tanto questionara a necessidade de fazê-la por estar ainda no segundo livro e ser mais conhecido como historiador, logo arranca as traves e ativa o olhar do lado bom das coisas. Dialoga consigo mesmo.

– Sou um poeta amador. Um poeta de domingo. É aquela coisa amadora. É o Drummond invejando Vinicius de Moraes. Esse que é poeta, vive como poeta. O Drummond vivendo como funcionário público. O outro bebeu todas, viveu todas, comeu todas. Mas, não, os dois eram grandes poetas. Eu tô mais me lamuriando, coisa de velho. É até bom dizer isso. Eu gostaria de ter me dedicado mais à poesia.

– Você está se explicando?

– É. Está em tempo, ainda. Acho.

Fernando, ansioso por ser devidamente reconhecido como poeta que é por quem o vê apenas como o historiador, usa a esperança como fio condutor do sonho e o enfretamento da preguiça com dedicada produção como âncora.

– Agora tá começando a mudar. Conto com você, héin!

– Colocarei logo no título: Achiamé, o poeta!

Rimos.

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